O cafezinho nosso de cada dia e o churrasco do fim de semana podem estar prestes a pesar mais no bolso do brasileiro. A quinta-feira (14/05/2026) trouxe um panorama de turbulência para o agronegócio nacional, com a geopolítica e as questões sanitárias dando o tom da semana e prometendo esquentar o cenário de exportações de commodities.

Cafezinho sob ameaça

A alta no preço dos fertilizantes, que já vinha sendo um fantasma para os cafeicultores, pode ganhar contornos ainda mais preocupantes. Segundo informações do InfoMoney Economia, o fechamento do Estreito de Ormuz, na rota de conflitos no Oriente Médio, elevou os custos em até 40% para produtores como Airam Quiuqui, que administra uma fazenda no Espírito Santo. Essa despesa extra, somada à possibilidade de um El Niño mais severo no segundo semestre, pode interromper a desaceleração dos preços do café que vinha sendo observada.

Para o consumidor, isso significa que aquele aumento gradual no preço do café torrado e moído, que já vinha sendo sentido, pode se intensificar. A conta da produção, encarecida pelos insumos importados e pela imprevisibilidade climática, tende a ser repassada. Se a expectativa era de um cafezinho mais tranquilo nos próximos meses, o cenário atual sinaliza o contrário.

Carne bovina em busca de mercado

Do lado da carne bovina, o cenário é de reviravoltas no principal destino de exportação: a China. Logo após a notícia de que centenas de fábricas americanas teriam suas licenças de exportação renovadas – um sinal de retomada do comércio em meio à cúpula entre os presidentes dos EUA e da China –, as permissões foram suspensas. O G1 Economia noticiou que o status de "efetivo" foi revertido para "expirado" no sistema de alfândega chinesa, deixando mais de 400 plantas americanas em limbo.

Embora essa notícia trate especificamente das exportações dos Estados Unidos, ela lança uma sombra sobre o comércio internacional de carne. A instabilidade nas negociações e as barreiras que surgem e desaparecem causam incerteza para todos os grandes exportadores, incluindo o Brasil. A dificuldade de acesso a mercados importantes pode pressionar os preços internos da arroba do boi, impactando tanto os pecuaristas quanto as indústrias de processamento.

Europa fecha portas para produtos animais

E as dificuldades não param por aí. A União Europeia anunciou um veto à importação de diversos produtos de origem animal do Brasil, incluindo carne bovina, aves, ovos e mel. A decisão, classificada como surpresa pelo governo brasileiro, foi antecipada por especialistas. Rodrigo Fagundes Cezar e Oto Montagner, professores da FGV, apontam em artigo publicado pela Folha Mercado que o veto pode ser visto como uma tática protecionista disfarçada, especialmente no contexto das negociações do acordo entre Mercosul e UE.

O impacto direto para o consumidor brasileiro pode não ser tão imediato no preço dos produtos no supermercado, já que a maior parte do veto se refere à exportação. Contudo, a vedação em mercados importantes como o europeu pode levar a um excedente de produção no mercado interno, o que, em teoria, poderia reduzir os preços. Por outro lado, a barreira sanitária e regulatória imposta pela UE pode se tornar um precedente, levantando a possibilidade de barreiras semelhantes serem erguidas por outros blocos econômicos no futuro, dificultando a vida das nossas exportações.

Crise no Agro reflete no bolso

Essa conjuntura de desafios externos e interna já mostra seus reflexos. O lucro do Banco do Brasil, por exemplo, caiu 54% no primeiro trimestre de 2026, impulsionado pela inadimplência crescente no setor de crédito rural. Segundo a Agência Brasil, a inadimplência do agro atingiu 6,22%, um aumento significativo que pressiona os balanços dos bancos e pode levar a um aperto no crédito para os produtores. Menos crédito e mais custos significam menor investimento e, consequentemente, menor oferta no futuro, o que pode se traduzir em preços mais altos.

O agronegócio é um dos pilares da economia brasileira, e quando ele sente os solavancos do cenário internacional e as dificuldades internas, a conta chega para todos. Seja no preço do café que acompanha o dia a dia, seja na disponibilidade e no preço da carne que compõe o prato do brasileiro, as notícias do front agro internacional e as questões sanitárias são um termômetro importante para entendermos o que nos espera no futuro próximo.