A China, nosso principal destino para a carne bovina, está prestes a consumir toda a cota de 1,1 milhão de toneladas liberada pelo governo chinês com tarifa reduzida. Segundo análise da StoneX divulgada nesta segunda-feira (6), o Brasil já garantiu 98,5% desse volume até o fim de junho. Isso significa que o mercado para o nosso produto por lá está praticamente fechado para este ano, pelo menos sob essas condições favoráveis.

O que isso significa para o bolso do brasileiro?

A primeira consequência direta dessa notícia é a mudança de estratégia dos frigoríficos. Com a porta de exportação para a China praticamente fechada, o ritmo dos abates tende a diminuir, especialmente no terceiro trimestre. Larissa Barboza Alvarez, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, aponta que a reação inicial da indústria tem sido justamente a redução dos abates. Para nós, consumidores, isso pode significar uma maior oferta de carne bovina no mercado interno. Em teoria, quando a oferta aumenta, os preços podem ter uma tendência de estabilidade ou até mesmo uma leve queda. Contudo, o setor também pode buscar readequar a oferta de outras formas, o que torna o cenário um pouco incerto no curto prazo.

A China protege sua produção e o Brasil sente o efeito

Essa cota de importação chinesa não é novidade e foi estabelecida com o objetivo de proteger a produção local de carne bovina no país asiático. Para o Brasil, significa que os volumes que antes seguiam para lá com uma tarifa preferencial agora não têm mais essa vantagem. O impacto é sentido diretamente na programação das exportações. A partir de agora, o saldo restante da cota deve ser preenchido até agosto, considerando o tempo de trânsito até a chegada efetiva na China. A partir daí, qualquer volume adicional enviado enfrentará tarifas de importação mais altas, tornando o produto brasileiro menos competitivo no gigante asiático.

Um movimento que já vimos antes?

Não é a primeira vez que a dinâmica da cota chinesa para a carne bovina brasileira gera ajustes na indústria. Em 2022, por exemplo, vimos um cenário similar de saturação da cota, o que levou a uma readequação dos abates e uma pressão por maior oferta no mercado interno. Quem acompanha o agronegócio há mais tempo sabe que essa relação com a China é crucial para os nossos exportadores e que qualquer mudança nas regras de importação do país asiático reverbera rapidamente em nossas fazendas e frigoríficos. A diferença agora é o percentual de preenchimento da cota já em junho, o que indica uma demanda inicial muito forte neste ano.

Um cenário que pode impactar outras cadeias

A redução nos abates de gado pode ter efeitos em cascata. Por exemplo, a menor demanda por animais vivos pode afetar o mercado de insumos para pecuária. Além disso, frigoríficos podem considerar férias coletivas para parte de seus funcionários, como já tem sido cogitado por algumas empresas, impactando a geração de empregos no setor em algumas regiões. Embora a matéria-prima possa se tornar mais disponível internamente, é importante observar como a indústria e os varejistas reagirão para repassar ou não essa maior oferta aos consumidores finais. Na minha leitura, o governo brasileiro poderia estudar incentivos ou negociações adicionais para evitar excessiva volatilidade nos preços internos.

Para quem investe no mercado financeiro, o cenário pode ser observado com atenção. A performance do agronegócio é um termômetro importante da nossa economia, e qualquer alteração significativa em um dos seus pilares, como a exportação de carne bovina, pode influenciar setores correlatos, como empresas de logística e de insumos. Embora o tema não esteja diretamente ligado a fundos imobiliários ou ofertas de ações no momento, a robustez do setor de commodities agrícolas é um indicador que influencia o apetite geral por risco no mercado financeiro.