A posse de Abelardo de la Espriella como novo presidente da Colômbia, marcada para 7 de agosto, já traz consigo uma forte sinalização de mudança na política externa do país. A decisão anunciada pelo presidente eleito de romper relações diplomáticas com Cuba e Nicarágua, em contrapartida a um estreitamento de laços com Israel — com a proposta de realocar a embaixada colombiana para Jerusalém —, tende a criar um novo tabuleiro geopolítico na América Latina e, inevitavelmente, a ter reflexos na economia regional.

A mudança de rumo e suas primeiras ondas

A declaração de Espriella, que classificou os governos de Cuba e Nicarágua como "tiranos", ecoa um discurso de extrema-direita que busca redefinir as alianças da Colômbia. A notícia, divulgada neste domingo (26), já gerou burburinho nos mercados e entre analistas, que buscam decifrar o real impacto dessas decisões para além da diplomacia. Quem acompanha os movimentos da região há algum tempo sabe que decisões políticas de peso, como essa, costumam reverberar nos fluxos de investimento e na percepção de risco para a América Latina como um todo. Não é a primeira vez que um país sul-americano tenta reconfigurar sua política externa de forma tão radical, e os resultados, muitas vezes, vêm acompanhados de volatilidade.

A decisão de Espriella contrasta com a política do atual presidente, Gustavo Petro, que em 2024 rompeu relações com Israel em repúdio à ofensiva em Gaza. O novo presidente eleito pretende não só restabelecer essas relações, mas fazê-lo já no primeiro dia de mandato, o que sinaliza uma prioridade clara em sua agenda internacional. No entanto, para além das questões ideológicas, o ponto que nos interessa aqui é como essa reconfiguração de alianças pode afetar o cenário econômico para o cidadão comum.

Conexões econômicas em risco

Romper relações diplomáticas com países vizinhos, mesmo que por discordâncias políticas, raramente é um ato sem consequências econômicas. Para a Colômbia, a aproximação com Israel pode trazer investimentos e novas parcerias, especialmente em setores como tecnologia e segurança, onde Israel é um player global. Contudo, o distanciamento de Cuba e Nicarágua pode significar o fechamento de portas para acordos comerciais que, embora possam parecer modestos individualmente, compõem a teia econômica regional. A Colômbia já anunciou o fechamento de 15 consulados e 14 embaixadas, um corte de custos que pode ter outros desdobramentos.

Na minha leitura, o governo de Espriella aposta em um alinhamento com potências ocidentais e Israel, buscando atrair capital e expertise. Porém, o cenário na América Latina é delicado. Há uma interdependência econômica entre os países da região que não pode ser ignorada. O que acontece na Nicarágua, por exemplo, que Daniel Ortega recentemente transformou oficialmente em um regime ditatorial ao eliminar a possibilidade de eleições futuras, tem sim um impacto na percepção de estabilidade geral da América do Sul. Essa incerteza política tende a deixar investidores mais receosos, o que pode se traduzir em menos oportunidades de emprego e em um custo de vida mais elevado para nós brasileiros, caso a aversão ao risco se generalize.

O que isso significa para o bolso do brasileiro?

O impacto direto para o brasileiro pode não ser imediato, mas é real. Em primeiro lugar, a instabilidade em países vizinhos tende a gerar incerteza nos mercados financeiros globais, o que pode pressionar o câmbio. Um dólar mais alto, por exemplo, encarece produtos importados, desde eletrônicos até insumos para a indústria nacional, refletindo-se em preços mais altos nas gôndolas dos supermercados e nas prateleiras das lojas.

Além disso, a América Latina é um bloco comercial importante. Mudanças drásticas como essa na política colombiana podem afetar cadeias de suprimento e dificultar a expansão de empresas brasileiras que operam na região, ou que buscam novos mercados. Se o ambiente de negócios na América Latina se torna mais instável ou menos previsível, o ritmo de crescimento da economia como um todo pode desacelerar, impactando a geração de empregos e o poder de compra das famílias. É como se, de repente, um vizinho decidisse fechar a rua principal do bairro; o trânsito para todos os outros pode ficar mais complicado.

Acompanhando os desdobramentos

O discurso de Espriella é forte e as ações anunciadas são significativas. A partir de 7 de agosto, será crucial acompanhar de perto como essas decisões serão implementadas e quais serão as reações dos outros países latino-americanos, assim como dos mercados globais. A economia não opera no vácuo, e cada movimento político, por mais distante que pareça, tem o potencial de gerar ondas que chegam até o nosso dia a dia.