A Organização Meteorológica Mundial (OMM) trouxe um alerta que não pode ser ignorado: a chance de um El Niño se instalar até novembro é de, no mínimo, 90%, com boa parte dos modelos apontando para um evento de intensidade moderada a forte. Para nós, brasileiros, isso não é apenas uma questão de previsão do tempo, mas um sinal de que o bolso e o dia a dia podem sentir os efeitos nos próximos meses.

O El Niño é aquele fenômeno natural conhecido por aquecer as águas do Oceano Pacífico. Pense nele como um grande desregulador do clima global. Quando ele aparece, ventos mudam, a pressão atmosférica se altera e, consequentemente, os padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo são afetados. Ele costuma dar as caras a cada dois a sete anos e pode durar de nove a doze meses.

E por que isso nos importa tanto? Porque um El Niño mais forte, como o que a ONU prevê, tende a “exacerbar a seca e as chuvas intensas e aumentar o risco de ondas de calor”, nas palavras da diretora-geral da OMM, Celeste Saulo. Na prática, isso se traduz em um cenário de extremos que pode impactar nossa rotina de várias formas.

O Agro na Mira do Clima

O setor agropecuário é, sem dúvida, um dos mais sensíveis a essas mudanças. Para o Brasil, que é um gigante na produção de alimentos para o mundo, um El Niño forte pode significar um cenário de desafios. As regiões Sul e Sudeste, por exemplo, podem enfrentar chuvas mais volumosas e constantes, prejudicando o plantio e a colheita de safras importantes como a de grãos e frutas. Já outras áreas do país podem sofrer com o oposto: secas prolongadas, que afetam diretamente a produtividade do campo.

A consequência mais imediata para o consumidor final? Preços mais altos no supermercado. Quando a oferta de produtos agrícolas diminui devido a condições climáticas adversas, os preços tendem a subir. Pense nos feijões que você compra, no óleo de soja, nos sucos de laranja – todos podem ficar mais caros se a produção for afetada. É como se o termômetro da inflação no setor de alimentos subisse de temperatura.

Calor Intenso e Contas de Energia

Além das chuvas, a previsão aponta para um aumento no risco de ondas de calor. Isso significa que os dias quentes podem se tornar mais intensos e frequentes. Para o nosso conforto, claro, mas também para o nosso bolso. O uso de ventiladores e ar-condicionado deve disparar, pressionando o consumo de energia elétrica. As distribuidoras de energia podem ter que intensificar o uso de usinas térmicas – que são mais caras e mais poluentes – para garantir o abastecimento, o que pode se refletir nas contas de luz dos brasileiros.

E não para por aí. Ondas de calor mais intensas também podem aumentar a demanda por água em algumas regiões, gerando preocupações sobre o abastecimento público e, em casos mais extremos, sobre a geração de energia hidrelétrica, que depende de reservatórios cheios.

Eventos Climáticos Extremos e Planejamento

O El Niño não traz apenas calor e seca ou chuva em excesso de forma isolada. Ele amplifica a ocorrência de eventos climáticos extremos. Isso inclui desde tempestades mais severas e alagamentos em áreas urbanas até vendavais e enchentes que podem causar transtornos, afetar a infraestrutura e exigir planos de contingência das autoridades. A própria OMM já associou o último El Niño a recordes de temperatura global, com 2024 sendo o ano mais quente já registrado.

Para o planejamento de curto e médio prazo, tanto para empresas quanto para famílias, essa imprevisibilidade climática é um desafio. Saber que teremos um El Niño forte nos próximos meses é uma oportunidade, no entanto, para nos prepararmos. Governos podem reforçar sistemas de alerta e defesa civil, agricultores podem ajustar seus calendários de plantio e nós, consumidores, podemos começar a pensar em como adaptar nosso orçamento para possíveis altas em alimentos e energia.

A previsão do tempo agora vem acompanhada de um alerta econômico. O El Niño está voltando, e é hora de ficar atento aos sinais que ele dará na nossa economia e no nosso cotidiano.