Sexta-feira chegou e, com ela, aquela olhada geral no cenário econômico para entender como os ventos lá de fora podem influenciar a nossa vida aqui no Brasil. E hoje, o foco está nos Estados Unidos, que andam mostrando sinais contraditórios.

Desemprego em baixa, mas…

A boa notícia é que o mercado de trabalho americano segue firme. Os pedidos de auxílio-desemprego subiram um pouco na última semana, mas ainda se mantêm em patamares historicamente baixos. Segundo dados do Departamento do Trabalho dos EUA, os pedidos iniciais de auxílio-desemprego aumentaram em 16 mil, chegando a 219 mil na semana encerrada em 4 de abril. Para colocar em perspectiva, economistas consultados pela Reuters esperavam 210 mil pedidos.

Em bom português, isso significa que as empresas por lá continuam segurando seus funcionários, o que é um sinal de confiança na economia. Mas nem tudo são flores, e é aí que entra a tal da inflação.

Inflação nos EUA ainda preocupa

O índice de preços PCE, um dos termômetros da inflação nos Estados Unidos, subiu 0,4% em fevereiro, tanto o índice cheio quanto o núcleo (que exclui alimentos e energia, considerados mais voláteis). Na comparação anual, o núcleo do PCE avançou 3%. Esses números vieram em linha com o que o mercado esperava, mas ainda estão acima da meta de 2% do Banco Central americano, o famoso Fed.

Essa persistência da inflação coloca o Fed em uma sinuca de bico. Com o mercado de trabalho aquecido, há menos pressão para cortar os juros. Mas, ao mesmo tempo, a inflação alta impede que o Banco Central relaxe a política monetária tão cedo.

E o Brasil com isso?

Aí você me pergunta: “Ana, e o que eu tenho a ver com isso?”. Tudo! A política monetária americana tem um impacto direto no mundo todo, inclusive no Brasil. Se o Fed mantém os juros altos, o dólar tende a se fortalecer, já que os investidores preferem aplicar em títulos americanos, considerados mais seguros e rentáveis. Um dólar mais forte, por sua vez, pode pressionar a inflação por aqui, já que muitos produtos que consumimos são importados ou têm seus preços atrelados à moeda americana.

É como se fosse um efeito cascata. A decisão do Fed impacta o dólar, que impacta a inflação, que impacta o seu poder de compra no supermercado.

O dilema do Banco Central brasileiro

O cenário nos EUA também influencia as decisões do nosso Banco Central, hoje liderado por Roberto Campos Neto e com Gabriel Galípolo como diretor de Política Monetária. Se o Fed não corta os juros, o BCB pode ter mais dificuldade em reduzir a Selic, a nossa taxa básica de juros. Afinal, um corte muito agressivo por aqui poderia levar a uma fuga de capitais e a uma desvalorização do real.

A autonomia do Banco Central, aliás, é um tema central nesse debate. Com um BC independente, as decisões de política monetária tendem a ser mais técnicas e menos sujeitas a pressões políticas, o que, em tese, garante mais estabilidade para a economia.

Resumindo a ópera: a economia americana está em um momento delicado, com um mercado de trabalho aquecido, mas uma inflação teimosa. Essa situação coloca o Fed em uma encruzilhada e tem um impacto direto no Brasil, do dólar aos juros. Fique de olho nos próximos capítulos!