A economia brasileira tem dado sinais de força, conseguindo se manter de pé mesmo diante de um cenário global turbulento. O Fundo Monetário Internacional (FMI) elogiou a “notável resiliência” do país, em relatório divulgado nesta segunda-feira (1º). A entidade destaca que o Brasil está relativamente protegido dos aumentos globais nos preços do petróleo, impulsionados pelo conflito no Oriente Médio, graças ao seu papel como exportador e à forte participação de energias renováveis na matriz elétrica. Essa boa notícia, segundo o FMI, aponta para uma recuperação econômica no início de 2026, com um crescimento que deve se fortalecer para cerca de 2,5% no médio prazo.

Parece que o FMI indica uma melhora na economia brasileira, com sinais de menor volatilidade ou aquecimento. No entanto, essa melhora no quadro geral não significa que os desafios foram embora. Enquanto o FMI reconhece a solidez do país, bancos e gestoras revisam suas projeções para a taxa básica de juros (Selic) para cima, mirando em patamares entre 13,5% e 14% ao final de 2026. Isso significa que as políticas de 'freio' econômico, como juros altos, que encarecem o crédito e desestimulam o consumo, tendem a permanecer por mais tempo.

E por que esses juros altos e a resiliência do PIB importam tanto para você no dia a dia? Bom, para começar, a projeção de inflação para 2026, segundo o Boletim Focus, do Banco Central, subiu pela 12ª semana consecutiva, agora beirando os 5,09%. Isso significa que os preços das coisas que você compra no supermercado, as contas de energia, tudo isso pode continuar pesando no seu orçamento. A Selic em alta, embora ajude a controlar essa escalada de preços, encarece o dinheiro. Financiamentos, parcelas de compras, crédito imobiliário, tudo tende a ficar mais caro.

O cenário é de cautela

Daniel Leigh, chefe da missão do FMI no Brasil, alertou que os riscos para o crescimento ainda estão inclinados para o lado negativo. A deterioração das tensões geopolíticas e o aperto das condições financeiras globais são pontos de atenção. Essa apreensão se reflete nas revisões de bancos e gestoras, que deixaram para trás as expectativas de cortes mais agressivos na Selic. O otimismo inicial, alimentado pela desaceleração da atividade econômica no começo do ano, deu lugar a uma postura mais conservadora.

O Banco Itaú, por exemplo, revisou sua estimativa de inflação para o ano, de 5,2% para 5,4%, e o PIB de 1,9% para 2,1%. A análise do banco aponta que o desempenho da atividade econômica no primeiro trimestre e as recentes medidas fiscais e de crédito anunciadas pelo governo fizeram com que o espaço para cortes de juros ficasse mais limitado. A escalada do conflito no Oriente Médio, que impacta os custos de produção, como visto no agronegócio, também adiciona uma camada de complexidade à equação.

No campo, a situação financeira dos agricultores se torna mais desafiadora

Falando em agronegócio, a situação por lá também tem seus percalços. Um levantamento da Serasa Experian mostrou que a inadimplência no setor fechou 2025 em 8,2%, um aumento de um ponto percentual em relação ao ano anterior. Agricultores estão lidando com margens apertadas e custos elevados, especialmente com fertilizantes e combustíveis, cujos preços subiram devido à guerra no Irã. Essa alta na inadimplência rural, concentrada em dívidas com instituições financeiras, afeta diretamente a saúde de bancos que financiam o setor, como o Banco do Brasil. Para quem vive ou trabalha no campo, isso se traduz em acesso mais restrito e caro ao crédito, dificultando novos investimentos e a manutenção das operações.

O Boletim Focus, que compila as projeções de economistas ouvidos pelo Banco Central, reflete essa preocupação com a inflação. As expectativas para o IPCA em 2026 não param de subir, acumulando 12 semanas seguidas de elevação. O IGP-M, outro índice importante para a precificação de contratos e aluguéis, também segue na mesma toada. A convergência para as metas de inflação, que era uma promessa de começo de ano, parece ter ganhado obstáculos no caminho. Essa persistência inflacionária, somada à necessidade de manter a Selic alta para combatê-la, cria um dilema para o governo e afeta o poder de compra do brasileiro.

Em resumo, o Brasil demonstra uma capacidade impressionante de se recuperar e de absorver choques externos. O FMI aplaude essa resiliência, mas os números das projeções para 2026 pintam um quadro mais temperado. Juros altos por mais tempo e uma inflação que teima em ficar acima do desejado significam que o planejamento financeiro das famílias brasileiras continuará exigindo atenção redobrada nos próximos meses.