A economia global é como uma orquestra onde cada país toca um instrumento, mas nem sempre no mesmo ritmo. Nesta quinta-feira, o maestro S&P Global nos deu a partitura dos PMIs – um indicador que funciona como um termômetro para a atividade empresarial. E o que vimos foi um claro contraste: os Estados Unidos estão a todo vapor, enquanto a Europa parece ter puxado o freio de mão. E, claro, essa melodia global tem seus ecos aqui no Brasil.

Pra quem não está acostumado, o PMI, ou Índice de Gerentes de Compras, é uma pesquisa feita com os gestores das empresas sobre a saúde dos negócios. Ele mede se a produção, novos pedidos e empregos estão crescendo ou diminuindo. Um valor acima de 50 indica expansão; abaixo, contração. Simples assim: 50 é a linha d'água.

Os Motores Americanos Acima da Velocidade

Começando pelo lado bom da coisa, a economia dos Estados Unidos está com tudo. O PMI composto, que junta serviços e indústria, saltou de 50,3 em março para 52 em abril, atingindo o maior nível em três meses. Isso não é só bom, mas superou o que os analistas esperavam, que era uma alta para 50,6, segundo informações da InfoMoney Economia.

Olhando os detalhes, o setor de serviços, que é o grande motor da economia americana, subiu de 49,8 para 51,3. A indústria também não ficou pra trás, avançando de 52,3 para um impressionante 54, o maior patamar em quase quatro anos (47 meses!). É como se a economia americana estivesse em uma estrada livre, pisando fundo no acelerador.

Apesar desse cenário de expansão, a Folha Mercado noticiou uma leve alta nos pedidos semanais de auxílio-desemprego. É um ponto a ser observado, mas que, por enquanto, não tira o brilho do crescimento geral. Uma economia aquecida tende a gerar mais empregos, mas pequenas flutuações são normais.

O que isso muda para o brasileiro?

Um Estados Unidos forte é uma faca de dois gumes para nós. Por um lado, uma economia americana robusta significa mais demanda por produtos brasileiros, especialmente nossas commodities (minério, soja, carne) e até alguns produtos manufaturados. Isso é bom para as nossas exportações e para o saldo da balança comercial, gerando divisas para o país.

Por outro, um crescimento tão acelerado nos EUA pode levar o Federal Reserve (o Banco Central de lá) a manter os juros altos por mais tempo para controlar uma possível inflação. Juros altos lá atraem capital, fortalecendo o dólar. E um dólar mais caro aqui em casa significa que importar produtos (eletrônicos, carros, até alguns alimentos) fica mais salgado. Suas viagens internacionais também ficam mais caras. Além disso, pode pressionar a inflação interna, especialmente nos preços da gasolina e de outros insumos importados.

A Europa na Contramão: Freio de Mão Puxado

Enquanto os EUA aceleram, a Europa parece ter engatado a ré. A atividade empresarial da Zona do Euro teve uma contração inesperada em abril, caindo de 50,7 em março para 48,6. Ou seja, abaixo da linha d'água de 50, e bem aquém da expectativa de 50,1, segundo dados divulgados pela Reuters e pela S&P Global. Isso significa que a atividade econômica encolheu.

Essa desaceleração vem, em grande parte, da guerra no Oriente Médio, que tem bagunçado as expectativas, subido os custos de produção e diminuído a disposição para o consumo. A demanda por serviços afundou, mostrando que as pessoas estão mais cautelosas na hora de gastar.

A Alemanha, que é a locomotiva econômica da Europa, também sentiu o golpe. Seu PMI composto encolheu para 48,3 em abril, a primeira vez abaixo de 50 desde maio do ano passado. O setor de serviços alemão, em particular, registrou sua pior queda em quase três anos e meio. Segundo Chris Williamson, economista-chefe de negócios da S&P Global, a Zona do Euro está enfrentando problemas econômicos cada vez mais profundos devido à guerra no Oriente Médio, o que é uma grande dor de cabeça para as autoridades da região.

França e Reino Unido tiveram um pequeno avanço nos PMIs industriais – talvez as empresas estejam fazendo estoque preventivo –, mas o setor de serviços também dá sinais de cansaço.

Como a freada europeia afeta a nossa rotina?

Uma Europa em desaceleração significa menos apetite por produtos e investimentos brasileiros. Se a demanda europeia por café, minério ou celulose diminui, nossas exportações podem sentir o impacto. Para o agro, por exemplo, é menos um comprador importante no mercado.

Além disso, a fraqueza europeia, combinada com os custos de produção em alta por lá (causados pela guerra e escassez de suprimentos), pode encarecer alguns produtos que importamos de lá. Se o preço da energia na Europa sobe, isso se reflete no custo de tudo que eles produzem e vendem para o resto do mundo, inclusive para o Brasil. A alta dos combustíveis globalmente, impulsionada pelo conflito, é um fator de inflação importada que chega nas bombas do seu carro e nos preços dos produtos do supermercado.

A Dança dos Mercados Globais e o Brasil

O cenário é de duas velocidades. Uma economia americana pisando forte pode ser uma âncora para o crescimento global, mas também significa um dólar mais valorizado, o que eleva o custo de vida aqui. Já a Europa, fragilizada, contribui para uma incerteza que respinga nos mercados financeiros globais, e nós, como parte integrante desse sistema, não ficamos imunes.

Para o brasileiro, acompanhar esses indicadores é entender um pouco melhor por que o pãozinho está mais caro, por que o preço da gasolina não para de flutuar, ou por que o investimento externo pode demorar um pouco mais a chegar. É a economia global, no seu vai e vem, ditando o ritmo do nosso dia a dia.