A tensão geopolítica voltou a dar dor de cabeça nesta quarta-feira (8). As bolsas globais sentiram o baque com declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que o acordo de paz com o Irã está "acabado", após novos ataques no Estreito de Ormuz. O reflexo mais imediato? O preço do petróleo disparou mais de 5% no mercado internacional, e isso, meus caros, tem tudo a ver com o nosso dia a dia aqui no Brasil.

Petróleo em alta, dólar preocupado

Quando o barril de petróleo sobe, o cenário para o nosso bolso começa a ficar mais complicado. O Brent, referência mundial, cruzou a marca de US$ 78 o barril, um salto considerável. Isso acontece porque o Estreito de Ormuz é uma das artérias vitais para o transporte dessa commodity. Qualquer instabilidade na região levanta o espectro de interrupções no fornecimento, e o mercado, como bom previsionista de desastres, reage com aumentos. Na nossa bolsa de valores, o Ibovespa, que ainda nem abriu para negociação às 10h, já sentiu a pressão antecipada.

E quem acompanha o dólar sabe: petróleo em alta e incerteza global quase sempre significam um dólar mais caro. Nesta manhã, a moeda americana já abriu em alta de 0,57%, negociada perto de R$ 5,18. Esse encarecimento do dólar morde a gente de várias formas. Primeiro, eleva o custo de produtos importados, desde eletrônicos até peças de maquinário industrial. E esse aumento se propaga.

O efeito cascata nos preços e na indústria

Quem acompanha o IPCA há tempo sabe que certos grupos de gastos costumam pressionar o índice quando o cenário externo desanda. Os derivados de petróleo são a espinha dorsal de muitos setores da nossa indústria. Combustíveis, como gasolina e diesel, sentem o impacto diretamente, o que afeta o custo do frete e, consequentemente, o preço final de praticamente tudo que você compra no supermercado ou na loja.

Não é a primeira vez que vemos essa dança. Em 2020, por exemplo, a volatilidade do petróleo já causou apreensão e afetou a inflação de energia. O padrão é que a instabilidade em fontes de matéria-prima essenciais para a economia global sempre encontra um jeito de chegar até o consumidor final. Para a nossa indústria, que depende de insumos importados e de combustíveis acessíveis, o cenário se torna mais desafiador. Setores como o de café solúvel, que têm uma pegada exportadora e usam derivados de petróleo em suas operações, podem sentir essa pressão adicional.

Na minha leitura, o governo brasileiro vai precisar ficar atento aos próximos capítulos dessa novela. Se a alta do petróleo se consolidar e o dólar permanecer pressionado, o cenário para o controle da inflação pode ficar mais turvo. Isso, por sua vez, pode influenciar as futuras decisões sobre a taxa Selic, embora, neste momento, a ata da última reunião do FOMC, o comitê de política monetária do Federal Reserve dos Estados Unidos, seja o principal foco dos investidores. O documento, esperado para a tarde, pode dar sinais mais claros sobre a condução da política de juros por lá, o que também reverbera em mercados emergentes como o nosso.

O que esperar para o bolso do brasileiro

Ainda é cedo para cravar os efeitos exatos, mas o recado é claro: a instabilidade no Oriente Médio não é um problema distante. Ela pode se traduzir em contas de luz mais altas, dependendo de como o custo da energia elétrica for impactado, em preços maiores nos postos de gasolina e, de forma mais pulverizada, no custo de vida em geral. Para quem busca emprego, um cenário de incerteza econômica global e custos de produção mais elevados pode desacelerar investimentos e, consequentemente, a geração de novas vagas.

Essa dinâmica nos lembra que o Brasil não é uma ilha econômica. As tarifas comerciais que podem surgir de atritos como esse, ou a maneira como o conflito afeta as exportações brasileiras para outras regiões, tudo isso se interconecta. O que acontece lá no Estreito de Ormuz, no fim das contas, pode mudar a sua programação de gastos no fim do mês. É um lembrete constante de que a geopolítica e a macroeconomia caminham de mãos dadas, e quem sente o impacto no final é você, consumidor.