O carrinho de compras do brasileiro pode ficar mais pesado. Uma nova onda de aumento nos preços globais de alimentos, a mais acentuada em três anos, acende um alerta para a economia e o poder de compra da população. A causa principal? A guerra no Oriente Médio, que tem levado à tensão e ao fechamento de rotas comerciais estratégicas.
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) divulgou nesta sexta-feira (8) que o índice de preços de alimentos da entidade atingiu 130,7 pontos em abril. Esse é o maior valor desde fevereiro de 2023, representando um avanço de 1,6% em relação a março e o terceiro mês consecutivo de alta. A situação já ultrapassou as barreiras geopolíticas e começa a afetar diretamente o abastecimento mundial de comida.
O Efeito Cascata do Petróleo e os Biocombustíveis
Um dos vilões dessa história é o preço do petróleo. O fechamento do Estreito de Ormuz, um dos pontos mais importantes para o transporte marítimo de petróleo no mundo, tem elevado significativamente os custos da commodity. E o que isso tem a ver com o seu prato?
Para começar, o petróleo mais caro se reflete em custos mais altos de transporte e produção em praticamente toda a cadeia produtiva. Mas há um fator adicional: a crescente demanda por biocombustíveis. Segundo Máximo Torero, economista-chefe da FAO, os altos custos de energia estão impulsionando a produção de biocombustíveis feitos a partir de plantas ricas em óleo. Isso, por sua vez, aumenta a pressão sobre o preço dos óleos vegetais, um componente essencial em diversas receitas e produtos alimentícios.
Se você tem acompanhado as notícias de economia, deve ter percebido que essa alta do petróleo já está sendo sentida em casa. O Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna (IGP-DI), divulgado pela FGV, mostrou uma alta de 2,41% em abril, acima do esperado. Segundo os economistas da FGV IBRE, o aumento do preço do petróleo começou a contaminar outros setores, como insumos industriais, custos logísticos e materiais de construção, além de pressionar a cadeia de alimentos. A expectativa é que essa inflação mais disseminada persista nos próximos meses.
Cereais Resistem, Mas Fertilidade Ameaçada
Nem tudo são más notícias, porém. De acordo com a FAO, os sistemas agroalimentares têm demonstrado resiliência. Os preços dos cereais, por exemplo, tiveram uma alta mais moderada graças a estoques adequados de temporadas anteriores. O trigo, que pode passar por um aperto, tem sua maior preocupação ligada à escassez de fertilizantes. Antes da escalada do conflito, cerca de um terço dos fertilizantes comercializados globalmente passava pelo Estreito de Ormuz. Com os bloqueios e a tensão militar na região, o suprimento desses insumos vitais para a agricultura se torna mais incerto.
O Impacto no Brasil: Do Supermercado à Construção
Para o brasileiro, essa conjuntura global se traduz em alguns cenários práticos. Em primeiro lugar, os preços dos alimentos no supermercado tendem a continuar sob pressão. Aqueles óleos vegetais que citamos, e que entram na composição de tantos produtos, já estão mais caros. O aumento do custo de transporte também encarece frutas, verduras e legumes, que muitas vezes vêm de outras regiões.
Mas não para por aí. O IGP-DI, que reflete preços no atacado e no varejo, pode prenunciar uma inflação mais generalizada. Se os custos de materiais de construção e insumos industriais sobem, isso pode se refletir em um aumento no preço das casas e em produtos manufaturados que consumimos no dia a dia. É como se o preço do frete subisse para tudo, desde o grão que vira pão até o cimento que constrói a sua casa.
Países como o Chile já sentem o aperto. A inflação por lá registrou o maior aumento em quase quatro anos, justamente devido à guerra no Irã, demonstrando o alcance global das tensões. A expectativa agora é de que as autoridades econômicas, tanto aqui quanto lá fora, precisem monitorar de perto esses desdobramentos para tentar mitigar os impactos no bolso do consumidor.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.