A conta do supermercado pode subir mais do que o esperado em 2026, e não é só culpa daquele item novo que apareceu na prateleira. O Ministério da Fazenda ajustou para cima as projeções de inflação para este ano, mirando em 4,5%, justamente o limite máximo da meta estabelecida pelo Banco Central. O principal vilão dessa história? O conflito no Irã e seus reflexos no preço do petróleo.

Para nós, brasileiros, isso não é apenas um número em um boletim. Essa alta na inflação se traduz em um custo de vida maior. Imagine que aquele churrasco de fim de semana pode ficar mais caro, não só pela carne, mas pelo gás de cozinha que usa para acender a churrasqueira, ou pela gasolina que te leva até o local. O reflexo se espalha por toda a cadeia produtiva.

Pressões globais batem na porta

A Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda atribui boa parte dessa pressão de alta diretamente à instabilidade no Oriente Médio. A disputa na região afeta a oferta de petróleo e, consequentemente, eleva o preço do barril no mercado internacional. Esse aumento se reflete nos combustíveis que abastecem nossos carros e caminhões, e se propaga para os custos de transporte de praticamente todos os produtos que consumimos.

Segundo a SPE, a estimativa para o preço médio do petróleo em 2026 saltou de US$ 73,09 para impressionantes US$ 91,25 por barril. Uma alta de cerca de 25%. Parece distante, mas peguemos o exemplo do álcool, que vem do petróleo. Se o petróleo sobe, o preço do álcool tende a acompanhar, o que impacta diretamente o preço da gasolina que você vê na bomba. E não para por aí: a energia elétrica, que também tem sua base ligada a combustíveis fósseis em parte, pode sentir o impacto.

O câmbio ainda ajuda um pouco

A boa notícia, ainda que parcial, é que o câmbio pode oferecer um certo alívio. A projeção do Ministério da Fazenda aponta para uma valorização do real frente ao dólar, com a taxa média passando de R$ 5,32 para R$ 5,16. Essa apreciação do real torna os produtos importados mais baratos para o Brasil, o que pode ajudar a segurar parte da alta geral de preços. É como se o dólar mais barato desse uma pequena folga na compra de insumos que vêm de fora, mas o efeito é limitado diante da magnitude da alta do petróleo.

Além disso, o cenário de juros mais altos ao longo do ano também é visto como um fator que pode ajudar a frear a inflação. Juros mais altos, em tese, desestimulam o consumo e o investimento, tornando o dinheiro mais caro e, consequentemente, reduzindo a pressão sobre os preços.

IGP-10 mostra um respiro, mas é temporário?

Enquanto o IPCA (o índice oficial de inflação ao consumidor) é o que mais sentimos no dia a dia, outros indicadores, como o IGP-10 medido pela FGV, já mostram algumas variações. Em maio, o IGP-10 subiu menos do que o esperado, registrando alta de 0,89%, bem abaixo dos 2,94% de abril. Essa desaceleração foi puxada pela queda de preços de matérias-primas brutas no atacado, como minério de ferro e álcool etílico.

No entanto, essa queda em alguns insumos não deve compensar totalmente as pressões vindas do cenário internacional, especialmente a dos preços de energia. O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA-10), que responde por 60% do índice geral, também desacelerou, mas a alta de 0,95% ainda indica custos que pressionam as indústrias.

PIB em ritmo moderado

No front do crescimento econômico, as expectativas permanecem moderadas. A Fazenda projeta um crescimento de 2,3% para o PIB em 2026, o mesmo patamar de março. A atividade econômica, como um todo, mostrou uma perda de fôlego em março, especialmente no setor de serviços, afetado pelos preços elevados de energia. A avaliação de bancos como o Bank of America é que a política fiscal mais expansionista pode ajudar a evitar uma freada brusca, mas o ritmo geral tende a ser mais contido.

Em resumo, 2026 se desenha como um ano onde as tensões geopolíticas globais, especialmente no Oriente Médio, podem pesar mais no nosso orçamento. A alta do petróleo e seus derivados tende a impulsionar a inflação, exigindo atenção redobrada do consumidor e das autoridades econômicas para mitigar os impactos no custo de vida.