O radar da economia brasileira para 2026 aponta para um cenário de persistente atenção. Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (18) pelo Banco Central mostra que as projeções para a inflação e para a taxa básica de juros, a Selic, foram elevadas. Para quem sente o aperto no orçamento, a notícia não é das mais animadoras.

A expectativa para o IPCA, o índice oficial de inflação, subiu levemente, de 4,91% para 4,92% em 2026. Parece pouco, mas essa pequena elevação é sintoma de um movimento maior que pode impactar diretamente o que você gasta no supermercado, na padaria e no posto de gasolina. Se o custo de vida sobe um pouco mais do que se previa, o poder de compra do seu salário diminui na mesma proporção. É como se o dinheiro na sua carteira comprasse um pouquinho menos a cada mês.

Acompanhando de perto, a projeção para a Selic também foi para cima, saindo de 13% para 13,25% ao ano. A Selic é o freio de mão da economia. Quando ela sobe, o custo do dinheiro fica mais alto. Isso significa que empréstimos, financiamentos e parcelamentos tendem a ficar mais caros. Para quem sonha em trocar de carro, reformar a casa ou até mesmo para as empresas que precisam de crédito para investir e gerar empregos, esse aumento representa um obstáculo a mais.

Por outro lado, a projeção para o dólar em 2026 caiu de R$ 5,30 para R$ 5,27. Uma moeda americana mais barata pode aliviar um pouco a pressão sobre produtos importados, como eletrônicos e alguns alimentos. No entanto, o impacto pode ser tímido diante das outras pressões que sentimos.

Choque do Petróleo e o Papel do Estado

Em meio a essas projeções, o cenário internacional também lança suas sombras. A turbulência no mercado de petróleo, com o Brent batendo US$ 110 o barril, levanta preocupações sobre novos aumentos nos combustíveis. Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, reforça que o papel do Estado é justamente proteger a economia desses choques. O desafio é encontrar o equilíbrio entre a remuneração dos investidores da Petrobras e a necessidade de amortecer o impacto da alta do petróleo nos preços internos, protegendo a produção e o emprego.

Para o consumidor, um choque no petróleo se traduz quase imediatamente em aumentos na gasolina e no diesel. Isso não afeta apenas quem dirige. O custo do transporte de mercadorias sobe, e esse repasse, inevitavelmente, chega ao preço final de quase tudo que compramos. A ideia é que o Brasil, com seu potencial no pré-sal e a produção de etanol, tenha uma resiliência maior para enfrentar essa tempestade.

O Dilema do Crédito e a Inflação

Falando em aperto no bolso, o programa “Novo Desenrola” surge como uma potencial ferramenta para aliviar a inadimplência. A intenção é boa: ajudar famílias a renegociarem suas dívidas, liberando renda para o consumo. No entanto, especialistas alertam para um efeito colateral: esse alívio no orçamento pode esquentar a demanda por bens e serviços, e com uma economia que ainda tem gargalos, isso pode pressionar a inflação para cima novamente.

É como se, de um lado, o governo tentasse dar um fôlego extra para as famílias endividadas, e do outro, esse fôlego extra pudesse reaquecer a demanda de um jeito que a oferta não consiga acompanhar. O resultado? Mais pressão sobre os preços, um cenário que o Banco Central costuma observar com muita atenção para decidir os próximos passos da Selic.

Renda versus Custo de Vida: Uma Briga Desigual

A sensação de que o salário não estica o suficiente para cobrir as despesas é uma realidade para muitos brasileiros. Segundo economistas, a baixa qualificação da mão de obra, a baixa produtividade – que força as pessoas a trabalharem mais horas para ganhar o mesmo – e uma economia ainda relativamente fechada contribuem para que a renda não acompanhe o custo de vida. Ou seja, mesmo quando a economia cresce um pouco, como a projeção de 1,85% para o PIB em 2026, esse crescimento não se traduz, na prática, em um ganho expressivo no poder de compra para a maioria.

É um ciclo vicioso: sem investimento em educação e tecnologia, a produtividade não aumenta, a renda fica estagnada, e a sensação de que os preços estão sempre um passo à frente só se reforça. Para o consumidor, isso significa que a lista de compras parece sempre maior e mais cara, mesmo com um indicador oficial de inflação que, superficialmente, pode parecer controlado. O que se ganha em um mês pode não ser suficiente para cobrir os gastos no mês seguinte, especialmente em itens essenciais.

O cenário para 2026, portanto, exige cautela. As projeções de inflação e juros mais altos, somadas às incertezas do mercado internacional e aos desafios estruturais da economia brasileira, indicam que o consumidor precisará manter o planejamento financeiro em dia e ficar atento às novidades econômicas que podem, direta ou indiretamente, afetar o seu dia a dia.