A tranquilidade que muitos esperavam para a economia em 2026 parece cada vez mais distante. O cenário para o próximo ano aponta para uma taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados, atingindo a projeção de 14% ao final de 2026, segundo análise da XP Investimentos. Ao mesmo tempo, a expectativa é que a inflação feche o ano em 5,3%, um número que ultrapassa, e muito, a meta estabelecida pelo Banco Central.

Essa combinação não é nada animadora para o bolso do brasileiro. Juros mais altos significam que o crédito – seja para comprar um carro, financiar uma casa ou até mesmo usar o cheque especial – tende a ficar mais caro. As parcelas dos empréstimos e financiamentos podem subir, apertando o orçamento familiar e desestimulando novas compras. É como se um peso fosse adicionado ao motor da economia, exigindo mais esforço para avançar, o que encarece os processos e leva as pessoas a serem mais cautelosas com os gastos.

Por que a conta não fecha para a inflação ceder?

Vários fatores colaboram para essa perspectiva mais desafiadora. A persistência da guerra no Oriente Médio, por exemplo, mantém os preços da energia em alerta, com potencial de gerar efeitos cascata em diversos produtos e serviços. Além disso, o avanço da Inteligência Artificial e os impactos de um possível El Niño severo sobre a produção agrícola são outros pontos de atenção que pressionam os preços, especialmente de alimentos.

No âmbito doméstico, o Banco Central observa com atenção o cenário. Gabriel Galípolo, presidente da autarquia, já indicou que o BC percebe "pressões de demanda" na economia. Essa pressão vem de uma renda familiar em alta, estímulos ao crédito e um mercado de trabalho resiliente, com baixo desemprego. Embora esses sejam, em tese, bons sinais, quando combinados com choques de oferta (como os vindos de conflitos internacionais), podem gerar um desconforto nas famílias, que sentem no supermercado e no posto de gasolina o aumento dos preços, mesmo que não acompanhem os índices oficiais de perto.

A valorização do real, por outro lado, tem sido um pequeno alívio para conter parte dessa inflação, segundo a XP. No entanto, não tem sido suficiente para compensar todos os outros vetores inflacionários.

Estímulos que aquecem, mas também pressionam a inflação

As medidas de estímulo fiscal e de crédito anunciadas desde o final do ano passado somam cerca de R$ 200 bilhões. Essa injeção de recursos na economia, embora esperada para impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) em até 1,5 ponto percentual em 2026, também pode vir com um efeito colateral: o aumento da demanda por bens e serviços. Se a oferta não acompanhar esse ritmo, a tendência é de alta nos preços.

A produção industrial brasileira, por exemplo, mostrou fôlego em abril, com uma alta de 0,7%, marcando o quarto mês consecutivo de expansão. Esse desempenho positivo, impulsionado por setores como o de petróleo e outros, é um indicativo de que a atividade econômica não está parada. No entanto, a grande questão é se essa produção conseguirá suprir o aumento da demanda sem gerar mais inflação.

Serviços em compasso de espera

Se olharmos para o setor de serviços, a fotografia de maio não é tão animadora. A atividade ficou praticamente estagnada, com o Índice de Gerentes de Compras (PMI) caindo para 50,4. O principal motivo foi a falta de novos pedidos, num cenário de alta nos preços cobrados que afeta uma demanda já fragilizada. Há uma esperança de que essa desaceleração seja passageira, mas o fato é que o setor de serviços, que costuma ser um amortecedor da economia, parece estar perdendo força.

O cenário internacional, com a política monetária do Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos em compasso de espera – como indicou John Williams, presidente do Fed de Nova York – também joga um papel. Ele não vê necessidade de alterações na taxa de juros americana no momento e não antecipa efeitos duradouros da guerra na inflação global. Contudo, a economia brasileira é influenciada por esses movimentos globais e pelas dinâmicas internas, que parecem apontar para um ano de cautela.

Para o consumidor, isso se traduz em um 2026 que exigirá ainda mais planejamento financeiro. Com juros mais altos e inflação pressionando o custo de vida, a atenção com os gastos se torna fundamental. O que custava R$ 100 hoje, pode exigir um pouco mais na prateleira do supermercado ou na fatura do cartão no ano que vem.