Brasília – A segunda-feira (13) foi marcada por declarações fortes no cenário internacional, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se posicionando contra um possível "tarifaço" dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Em meio a um período decisivo para as relações comerciais entre os dois países, o governo americano deve anunciar até quarta-feira (15) se imporá novas tarifas de 25% e 12,5% sobre bens exportados pelo Brasil. A fala de Lula veio após uma pergunta de um repórter em São José dos Campos, no interior de São Paulo, durante um evento, onde ele também criticou Donald Trump por ameaçar cobrar taxas sobre cargas que utilizam o Estreito de Ormuz.

Tensão comercial e o receio do "tarifaço"

A expectativa é que o governo brasileiro precise definir uma resposta oficial caso as novas tarifas americanas sejam confirmadas. A possibilidade já foi reforçada por declarações recentes do Departamento de Comércio dos EUA, indicando distanciamento em um possível acordo. Negociadores brasileiros, no entanto, avaliam que pode haver espaço para negociações, como a inclusão de mais exceções à nova cobrança. Uma análise da São Paulo Negócios, divulgada pela Folha Mercado, mapeou que uma tarifa de 25% poderia atingir 93% da pauta exportadora de São Paulo para os EUA, impactando diretamente os dez principais produtos da região, como o etanol.

Para quem acompanha o comércio internacional há algum tempo, esse tipo de tensão comercial não é novidade. Vimos em 2020 e 2022 episódios semelhantes, onde o uso de tarifas como ferramenta de barganha política e econômica gerou incertezas para os produtores e exportadores brasileiros. A diferença agora é a retórica inflamada e as ameaças diretas, que parecem ter escalado o debate. Na minha leitura, o governo brasileiro está em uma posição delicada: precisa defender seus interesses sem gerar um conflito comercial maior que possa prejudicar ainda mais o fluxo de exportações em um momento que a economia global já dá sinais de instabilidade.

Trump e a crítica de "pirataria"

A fala de Lula sobre "pirataria" foi uma reação direta a declarações de Donald Trump. O ex-presidente americano, em entrevista à Fox News e em sua rede social, afirmou que os EUA seriam "guardiões do estreito" de Ormuz e que deveriam ser "reembolsados" por liberar a via marítima. Trump chegou a sugerir uma taxa de 20% sobre cargas transportadas por embarcações que passam pelo local. Lula, durante visita ao Instituto Mauá de Tecnologia, em São Paulo, classificou a proposta como "anormal", comparando-a com a prática histórica de pirataria e cobrando responsabilidade dos Estados Unidos em garantir a segurança da navegação sem cobranças.

Essa narrativa, se concretizada, pode gerar um efeito cascata perigoso no comércio global. O Estreito de Ormuz é um ponto estratégico fundamental para o transporte de petróleo. Cobranças arbitrárias nesse ponto crítico poderiam encarecer o frete e, consequentemente, o preço final de diversos produtos, pressionando a inflação em todo o mundo. É como se um pedágio inesperado fosse instalado em uma das principais autoestradas do planeta. Para nós, brasileiros, isso se traduziria em preços mais altos para bens importados e, quem sabe, um encarecimento de produtos que dependem de insumos vindos de países que utilizam essa rota.

Impacto no dia a dia do brasileiro

As tarifas comerciais entre grandes potências econômicas, como Brasil e Estados Unidos, não são apenas manchetes internacionais. Elas têm um impacto direto na vida de todos nós. Se as tarifas americanas forem confirmadas, o custo de produtos brasileiros exportados para lá pode aumentar, tornando-os menos competitivos. Isso pode afetar a demanda e, em última instância, a produção em setores que empregam milhares de brasileiros. Por outro lado, se o Brasil retaliar com tarifas sobre produtos americanos, o custo de importados pode subir, pressionando o orçamento familiar.

Quem acompanha os números do ComexStat, consultados pela Folha Mercado, sabe que o etanol, por exemplo, é um dos produtos mais exportados pelo estado de São Paulo para os EUA. Uma tarifa sobre ele significaria menos receita para os produtores e, possivelmente, um ajuste nos preços internos. No caso da ameaça de Trump sobre o Estreito de Ormuz, um aumento nos custos de frete de petróleo, mesmo que indiretamente, pode reverberar no preço dos combustíveis nos postos. É um ciclo que, muitas vezes, começa longe, mas termina batendo à nossa porta com contas mais altas e menor poder de compra.

Acompanhamos esse movimento desde que as primeiras sinalizações de possíveis tarifas surgiram. A apuração do The Brazil News mostra que o governo brasileiro tem trabalhado nos bastidores para evitar o pior cenário, mas a imprevisibilidade das decisões internacionais é um fator de constante atenção. Na minha leitura, a resposta do Brasil dependerá muito do tom e da abrangência das tarifas impostas pelos EUA. O que podemos esperar é uma semana de muita negociação e declarações contundentes, com os olhos voltados para os reflexos que essas tensões terão em nossas prateleiras e no nosso bolso.