A quinta-feira (23) amanheceu agitada para a economia global, com o preço do barril de petróleo Brent ultrapassando a marca dos US$ 100. Esse salto, impulsionado pela nova escalada de conflitos no Oriente Médio, acendeu um alerta para as economias de todo o mundo, inclusive a brasileira. E acreditem, o reflexo já chega ao nosso dia a dia, seja nos preços que pagamos, na força da nossa moeda ou nas decisões futuras do Banco Central.
Petróleo caro: um ciclo que se repete
Não é a primeira vez que vemos o petróleo flertar com os US$ 100 o barril. Em 2021, cobri um período de alta similar em decorrência de outros choques de oferta e demanda. A dinâmica, no entanto, é sempre a mesma: tensões geopolíticas, especialmente na região do Golfo Pérsico, criam incertezas sobre a oferta, e o mercado reage de forma imediata, inflando os preços. Dessa vez, os ataques a petroleiros sauditas e a dificuldade de navegação no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás natural global, são os principais motores dessa nova alta. O barril do Brent, referência internacional, chegou a ser cotado a US$ 100,64, enquanto o americano WTI avançava para US$ 92,00. A preocupação é que esse “choque energético”, como chamam alguns economistas, se espalhe e reaqueça pressões inflacionárias em diversas economias.
Juros em alta: Estados Unidos e Europa se movimentam
E quando a inflação dá sinais de fôlego, a resposta mais comum dos bancos centrais é o aumento dos juros. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) já sente a pressão. Apostas do mercado, acompanhadas pelo CME FedWatch, indicam que a probabilidade de uma elevação da taxa de juros básica já na reunião do dia 29 de julho aumentou significativamente, saindo de 11,8% para 37,9%. Para setembro, a expectativa de aperto monetário é ainda maior. Na minha leitura, o governo americano quer dar um recado claro de que está atento à inflação, mesmo que isso signifique desacelerar um pouco a economia. É um ato de equilíbrio delicado, que busca controlar os preços sem jogar o país em recessão.
A Europa também não fica de fora dessa dança. O Banco Central Europeu (BCE), que manteve as taxas inalteradas nesta quinta-feira, deixou em aberto a possibilidade de novos aumentos a partir de setembro. A presidente Christine Lagarde reconheceu que os preços da energia ameaçam manter a inflação acima da meta de 2%. Essa postura mais cautelosa, mas com sinalização de aperto, é um padrão que observo em momentos de incerteza externa. As economias europeias, já sensíveis a choques de commodities, precisam redobrar a atenção.
Dólar se fortalece e Ibovespa sente o baque
Para nós, brasileiros, a primeira consequência direta dessa turbulência internacional é sentida no câmbio. O dólar, visto como porto seguro em momentos de incerteza, tende a se valorizar. E foi exatamente o que vimos hoje. A moeda americana operou em alta, chegando a ser cotada a R$ 5,0818 perto do meio-dia, um avanço de 0,61%. Isso significa que produtos importados, como eletrônicos, peças de carro e até mesmo alguns insumos para a indústria nacional, tendem a ficar mais caros. Na ponta oposta, o nosso principal índice da bolsa, o Ibovespa, sentiu o impacto e operava em queda, recuando 0,18%, aos 177.229 pontos. Essa instabilidade no mercado de ações reflete a cautela dos investidores diante de um cenário global mais arriscado.
E o seu bolso, como fica?
A pergunta que não quer calar: como essa escalada do petróleo e a possível alta de juros lá fora afetam o seu dia a dia? Bem, é um efeito cascata. O petróleo mais caro impacta diretamente o preço dos combustíveis. Se os postos de gasolina reajustarem os valores para repassar o aumento, isso se reflete no transporte público, no frete de mercadorias e, consequentemente, no preço final de quase tudo que você compra no supermercado ou em lojas. É como aquele freio que o Banco Central aciona: tudo tende a ficar um pouco mais caro e o poder de compra diminui.
Além disso, com os juros nos Estados Unidos e na Europa em trajetória ascendente, o Brasil se torna um destino menos atrativo para investimentos estrangeiros em busca de retornos mais seguros. Isso pode pressionar ainda mais a nossa moeda. Para o governo, a combinação de juros internacionais mais altos e um dólar fortalecido pode encarecer a rolagem da dívida pública e dificultar o controle inflacionário interno, caso o Banco Central do Brasil precise seguir um caminho de aperto monetário mais agressivo para se manter competitivo. Na minha visão, é um período de atenção redobrada para quem acompanha a economia, pois o Brasil, mesmo sendo um país produtor de petróleo, não está imune aos efeitos globais de um barril acima dos US$ 100.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.