Sabe aquele filme de terror que a gente pensa que acabou, mas sempre tem uma continuação? A novela dos combustíveis no Brasil parece seguir o mesmo roteiro. As tensões geopolíticas no Oriente Médio, com ataques e contra-ataques, jogaram o preço do petróleo lá para cima – o barril do tipo Brent já ultrapassou os US$ 100, o maior valor desde 2022. E, claro, a bomba explode por aqui também.

A Petrobras (PETR4) já tinha elevado o preço do querosene de aviação em 9,4% no começo do mês, e agora o presidente da Gol, Celso Ferrer, já avisou: a alta do petróleo vai, sim, impactar o preço das passagens aéreas. Ele garantiu que a empresa tem como lidar com esses choques no curto prazo, mas adiantou que um repasse para o consumidor é inevitável. Ou seja, se você está planejando aquela viagem, prepare o bolso.

O que o governo está fazendo?

Diante desse cenário, o governo federal anunciou algumas medidas para tentar conter a escalada dos preços. A principal delas é a isenção de PIS/Cofins sobre a importação e comercialização do óleo diesel. Segundo o Palácio do Planalto, essa medida representa uma redução de R$ 0,32 por litro do diesel nas refinarias, somada a uma subvenção de outros R$ 0,32 por litro.

Para bancar essa renúncia fiscal, o governo também decidiu retomar a cobrança de uma taxa de 12% sobre as exportações de petróleo, algo que já tinha feito por um período em 2023. A ideia é que a receita gerada por essa taxa compense a perda de arrecadação com a desoneração do diesel.

Mas será que funciona?

É aí que as coisas se complicam. Especialistas do setor já estão criticando a medida, argumentando que ela traz mais incertezas para os investimentos das petroleiras no Brasil e pode tornar os projetos menos competitivos. Décio Oddone, ex-presidente da ANP e da Petrobras Bolívia, questionou a reincidência do governo em taxar as exportações, o que, segundo ele, manda um sinal ruim para o mercado.

É como um curativo que infecciona a ferida: a medida pode até aliviar a situação no curto prazo, mas corre o risco de gerar problemas maiores lá na frente. Afinal, se as petroleiras ficarem menos dispostas a investir no Brasil, a produção de petróleo pode cair, o que, por sua vez, pode levar a novos aumentos de preços.

E os Estados Unidos?

Enquanto isso, os Estados Unidos também estão tentando conter os preços do petróleo. O Departamento do Tesouro americano anunciou que vai permitir, até o dia 11 de abril, a venda de petróleo russo que já está em navios, ou seja, em trânsito. A medida visa aliviar a pressão sobre os preços, mas é temporária e restrita ao petróleo já carregado antes de 12 de março.

É como se os EUA estivessem abrindo um pouquinho a torneira para aumentar a oferta de petróleo no mercado e tentar derrubar os preços. Mas, como a medida é temporária e limitada, o efeito prático deve ser pequeno.

O que esperar para o futuro?

Ainda é cedo para dizer qual será o impacto final de todas essas medidas no bolso do consumidor brasileiro. A alta do petróleo no mercado internacional é um fator de pressão, mas as decisões do governo e a reação das petroleiras também vão influenciar o preço final dos combustíveis.

Uma coisa é certa: a volatilidade no mercado de petróleo deve continuar, e isso significa que os preços da gasolina e do diesel também devem oscilar bastante nos próximos meses. Por isso, é bom ficar de olho e se preparar para eventuais aumentos.

No fim das contas, a novela dos combustíveis é mais um capítulo da saga da inflação no Brasil. Se o petróleo continuar subindo, a tendência é que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) também acelere, o que pode levar o Banco Central a manter os juros altos por mais tempo. E aí, como um efeito cascata, tudo fica mais caro: dos alimentos às roupas, dos serviços aos imóveis. É a economia real batendo à porta.