Parece que a notícia boa chegou: mais brasileiros estão trabalhando e a renda média atingiu um pico histórico. No trimestre encerrado em janeiro de 2026, o salário médio real bateu R$ 3.652, e mais de 102 milhões de pessoas estavam ocupadas. Se olharmos para a renda domiciliar per capita, o número é ainda mais animador, alcançando R$ 2.264 em 2025, um recorde desde que o IBGE começou a medir.

À primeira vista, dá para pensar: "oba, o dinheiro vai render mais!". Mas a realidade, como sempre, tem seus truques. Enquanto a carteira parece mais cheia, a conta bancária pode não refletir o alívio esperado. É que uma fatia considerável desses ganhos está sendo rapidamente sugada por dívidas e seus juros.

Um estudo do Centro de Liderança Pública (CLP) joga uma luz nessa contradição. Ele mostra que, mesmo com o mercado aquecido, o endividamento das famílias atingiu 49,9% da renda em fevereiro, igualando um pico histórico. Isso significa que quase um terço dos ganhos já está comprometido com parcelas de empréstimos, financiamentos e cartão de crédito. Sabe aquele amigo que, mesmo com um bom salário, vive com o nome sujo e as contas atrasadas? Pois é, o cenário brasileiro está um pouco assim: muita gente empregada, mas com dificuldades financeiras.

Essa situação afasta a ideia de que o aumento da renda se traduz em mais poder de compra para o dia a dia. Em vez de sobrar dinheiro para aquele passeio extra ou para comprar algo que se deseja há tempos, o foco se volta para manter as contas em dia. Aquele aumento que parecia uma vitória se transforma em mais dinheiro sendo direcionado para os bancos, devido aos juros das dívidas.

O economista Daniel Duque, do CLP, aponta que isso transforma um problema econômico em um desgaste político. A narrativa de um governo que gera empregos e aumenta a renda esbarra na realidade de um cidadão que sente o dinheiro escorrer pelos dedos por causa das obrigações financeiras.

Um alívio temporário? O Novo Desenrola em jogo

Diante desse quadro, o governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil. A iniciativa, com duração de 90 dias, busca renegociar dívidas e, segundo análises preliminares da XP Research, pode trazer algum respiro. A expectativa é que o programa reduza as taxas de inadimplência e o endividamento em cerca de 0,8 ponto percentual, com uma queda de até 2,3 pontos percentuais no comprometimento da renda familiar.

Isso pode até impulsionar o consumo em cerca de 0,20% a 0,25%, o que, modestamente, adicionaria uns 0,15% ao crescimento do PIB em 2026. Pense nisso como um curativo: ajuda a estancar o sangramento financeiro imediato causado pelas dívidas, mas não resolve a causa raiz do endividamento. O problema é que, pelo menos na configuração atual, o Desenrola age mais como um alívio temporário do que como uma solução completa para o desequilíbrio no mercado de crédito.

A face da desigualdade

Outro ponto levantado pelos dados do IBGE é a questão da desigualdade. Apesar de a renda ter crescido em todas as faixas de renda em 2025, os mais ricos viram seus ganhos aumentarem em uma proporção maior. Se por um lado isso mostra uma melhora generalizada, por outro, a distância entre os mais ricos e o restante da população pode ter se ampliado ligeiramente.

Enquanto isso, o Bolsa Família teve uma redução na incidência de lares beneficiados, o que, em tese, pode ser visto como um sinal de que mais pessoas estão conseguindo se sustentar com o próprio trabalho. Mas a conta não fecha totalmente quando o tema é o endividamento.

Para o brasileiro comum, isso significa que a busca por crédito, muitas vezes necessária para dar conta das despesas do dia a dia ou para investimentos pontuais, precisa ser feita com redobrada atenção. A facilidade com que a renda é comprometida pelas parcelas de crédito consignado, por exemplo, pode virar uma armadilha. A boa notícia da renda recorde, portanto, vem com um alerta: cuidado com as dívidas, pois elas podem consumir seus ganhos rapidamente.