A manchete é animadora: mais brasileiros empregados, com salários em alta e a renda média real atingindo patamares históricos. Parece a receita perfeita para um cenário de prosperidade. No entanto, por trás desses números otimistas, reside um paradoxo que tem tirado o sono de muitos: a renda que melhora não consegue, em muitos casos, aliviar o peso das dívidas. Ao que tudo indica, o brasileiro está trabalhando mais e ganhando melhor, mas boa parte desse esforço se perde em juros e parcelas.

Dados recentes do IBGE pintam um quadro de sucesso aparente. Em 2025, o número de brasileiros com algum tipo de renda alcançou um pico de 143 milhões de pessoas, com a massa de rendimento batendo um recorde de R$ 370,3 bilhões. A população ocupada chegou a impressionantes 102,7 milhões de pessoas. É um sinal de um mercado de trabalho aquecido, que, para muitos, significou a saída do desemprego e o retorno a uma vida com mais segurança financeira. Paralelamente, a incidência de lares dependentes do Bolsa Família apresentou recuo, o que, em tese, seria um indicativo de melhora na autossuficiência das famílias.

O freio na economia familiar: o peso das dívidas

Porém, quando olhamos para o outro lado da moeda, a realidade se mostra bem menos celebratória. Um estudo divulgado pelo Centro de Liderança Pública (CLP) nesta sexta-feira (8) joga luz sobre esse contraste desconfortável. Ele aponta que uma parcela cada vez maior dos ganhos obtidos com o emprego está sendo engolida por dívidas, juros e parcelas. O endividamento das famílias, que deveria estar em declínio em um cenário de prosperidade, volta a ser um dos pontos centrais da política econômica.

Segundo o CLP, os dados do Banco Central revelam que, em fevereiro, as dívidas familiares representavam 49,9% da renda, um patamar que iguala o pico histórico de julho de 2022. Pior ainda: o comprometimento da renda com pagamentos subiu de 29,5% para 29,7%. Isso significa que, mesmo com salários maiores, quase um terço do que entra na conta de muitas famílias já está comprometido antes mesmo de ser gasto. É como se a cada R$ 100 que o brasileiro ganha, R$ 30 já tivessem destino certo: os credores.

Daniel Duque, head de Inteligência Técnica do CLP, destaca que esse cenário transforma um problema econômico em um desgaste político. "O trabalhador está empregado, mas endividado. O salário cresce, mas a parcela cresce junto". Essa realidade frustra qualquer narrativa de que o aquecimento do mercado de trabalho, por si só, traria alívio generalizado.

O Novo Desenrola: um alívio, mas não a cura

Diante desse quadro, o governo federal anunciou o Novo Desenrola Brasil, uma iniciativa de renegociação de dívidas com prazo de 90 dias. A expectativa, segundo análise da XP Research, é que o programa traga um alívio pontual. As estimativas preliminares apontam para uma possível queda de até 2,3 pontos percentuais na razão de endividamento das famílias e uma redução de 0,8 ponto percentual na taxa média de inadimplência até o final deste ano. Além disso, pode haver um pequeno impulso no consumo, com um potencial incremento de 0,15 ponto percentual no crescimento total do PIB em 2026.

No entanto, a própria XP Research adverte que o programa deve ser visto mais como um "alívio, não solução". A iniciativa, em seu desenho e duração atuais, não resolve as causas estruturais do desequilíbrio no mercado de crédito. É como colocar um curativo em um ferimento profundo: ajuda no momento, mas não cura a causa da doença.

Juros altos e spreads bancários: os vilões silenciosos

Mas afinal, por que o endividamento persiste mesmo com mais empregos e renda? A resposta passa, inevitavelmente, pelas taxas de juros elevadas e pelos altos spreads bancários no Brasil. Economistas apontam que a Selic, a taxa básica de juros, somada às margens de lucro que os bancos aplicam sobre os empréstimos, criam um ciclo vicioso. O spread bancário no Brasil, que representa a diferença entre o que os bancos pagam para captar dinheiro e o que cobram para emprestar, atingiu 34,6 pontos percentuais em março, um aumento significativo em relação aos 29,7 p.p. de março de 2025. Para se ter uma ideia, o Banco Mundial estima um spread médio mundial em torno de 6 p.p. Essa discrepância colossal no Brasil explica em grande parte por que o crédito se torna tão caro e pesado no bolso do consumidor.

A inflação, embora tenha dado sinais de moderação em alguns períodos, continua a pressionar o poder de compra, e os juros altos encarecem tanto novas dívidas quanto o custo de rolar as antigas. Assim, mesmo com salários nominalmente maiores, o dinheiro que sobra – se é que sobra – é cada vez menor para fins de lazer, investimento ou simplesmente para lidar com imprevistos. A queda no número de beneficiários do Bolsa Família, se por um lado indica mais autonomia, por outro pode significar que famílias que antes contavam com esse auxílio para complementar a renda agora precisam usar ainda mais seus salários para cobrir despesas básicas, tornando o endividamento uma armadilha difícil de escapar.

O futuro é incerto: um olhar para além do alívio

A economia brasileira navega em águas complexas. Temos um mercado de trabalho robusto, que é um ponto positivo inegável e um motor essencial para a atividade econômica. No entanto, a persistência do alto endividamento, alimentado por juros e spreads bancários elevados, lança uma sombra sobre essa melhora. O Novo Desenrola pode oferecer um respiro temporário, ajudando a limpar o nome de muitos e a aquecer o consumo em um ritmo moderado. Mas a questão fundamental é: o que será feito para atacar as causas do endividamento?

A política econômica precisa ir além dos programas de renegociação. É crucial um olhar atento para a estrutura de crédito no país, para a taxa de juros e para as margens praticadas pelos bancos. Sem uma solução estrutural, corremos o risco de ver esse ciclo de "ganha, mas não tem o que sobra" se repetir, frustrando as expectativas de uma prosperidade mais sólida e duradoura para o bolso do brasileiro comum. O desafio para os próximos meses é transformar esse alívio em uma base mais estável para o bem-estar financeiro das famílias.