A mensagem do Banco Central (BC) nesta quarta-feira (20) é clara: a Selic, nossa principal ferramenta para controlar a inflação, ainda está alta e o trabalho está longe de ser concluído. Mas, atenção, porque a economia brasileira não está dando moleza e continua mostrando força. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, deu o recado em audiência no Senado: "A gente assiste uma economia que vem demonstrando resiliência, um desemprego que segue baixo, uma renda que segue crescendo acima da inflação e acima da produtividade e indicadores de inflação bastante pressionados, ainda que a gente tenha uma taxa de juros elevada".

O que isso significa para você no dia a dia? Pense na Selic como o freio da economia. Quando ela está alta, o crédito fica mais caro, o que pode desestimular o consumo e os investimentos. A ideia é justamente esfriar a demanda para que os preços parem de subir tão rápido. Só que, no Brasil, o motor parece estar mais potente do que o esperado.

Apesar de estar em um nível que inibe gastos, o mercado de trabalho continua firme, com gente empregada e, o que é melhor, com a renda crescendo. Isso alimenta a demanda por bens e serviços, e aí, a inflação sente o baque e demora mais para ceder. É como tentar segurar uma onda gigante com as mãos, mas a maré continua forte.

O paradoxo da dívida pública atrelada à Selic

Um ponto que chama a atenção na fala de Galípolo é o desafio extra que a estrutura da dívida pública brasileira impõe ao BC. Cerca de metade da dívida do governo está atrelada à Selic. Ou seja, quando o Banco Central sobe os juros para combater a inflação, ele automaticamente aumenta os gastos com juros da própria dívida. "Hoje nós temos 50% da dívida soberana 'linkada' à Selic... Quanto mais eu subo juros, mais renda o detentor de LFT tem", explicou o presidente.

Isso cria um efeito contraproducente. A ideia de subir juros é esfriar a economia para controlar os preços. Mas, ao mesmo tempo, a alta da Selic injeta mais dinheiro no bolso de quem tem títulos públicos atrelados a ela, o que pode aquecer a demanda e ir na contramão do objetivo principal do BC. É um desafio complexo a ser superado, que exige decisões ponderadas.

Choques externos e a persistência inflacionária

Galípolo também mencionou os recentes choques de oferta que têm afetado os preços globais. A pandemia, a guerra na Ucrânia, questões tarifárias e os conflitos no Oriente Médio criaram uma tempestade perfeita, levando à alta de insumos e produtos. Diferente do que aconteceu no Plano Real, onde uma medida única resolveu o problema da inflação, hoje a situação é mais complexa. "Esse caso me parece ser mais complexo. Ele vai demandar uma série de reformas sucessivas para a gente conseguir desobstruir esses canais", pontuou o presidente.

Essa situação se reflete nas expectativas de inflação. O BC vê que as projeções para o futuro, como para 2028, ainda estão acima do esperado, indicando que a pressão inflacionária pode ser mais persistente. O mercado, vendo que os choques ainda não foram totalmente superados, antecipa preços mais altos para o futuro, o que pode influenciar as decisões de preços hoje.

O que isso significa para você?

Para o cidadão comum, essa conjuntura significa que a vida ainda pode continuar cara por um tempo. A inflação alta corrói o poder de compra. O que você comprava com R$ 100 hoje, daqui a um tempo, poderá custar mais. Se o pãozinho na padaria, o aluguel, ou aquele passeio no fim de semana ficam mais caros, o orçamento familiar sente o aperto.

A resiliência da economia e o baixo desemprego são pontos positivos que ajudam a mitigar esse impacto. Afinal, ter um emprego e uma renda crescente é fundamental. Contudo, a persistência da inflação em patamares elevados pode gerar uma sensação de estagnação, onde o aumento da renda não se traduz em melhora efetiva no padrão de vida, pois os preços acompanham de perto.

O desafio para o Banco Central é encontrar o ponto de equilíbrio: manter a Selic alta o suficiente para domar a inflação, sem estrangular de vez a atividade econômica. A missão é complexa e exigirá não apenas a atuação da política monetária, mas também um esforço em outras frentes, como as reformas estruturais mencionadas por Galípolo, para que os preços voltem a um ritmo mais estável e a vida financeira do brasileiro se torne mais previsível.