A tensão comercial com os Estados Unidos, marcada pelo recente anúncio de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, encontra um alívio inesperado nas vendas para a Europa. Em apenas dois meses desde a vigência provisória do acordo Mercosul-União Europeia (UE), as exportações brasileiras para o continente europeu dispararam R$ 10 bilhões, um salto de 26% em relação ao mesmo período de 2025. A notícia, celebrada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, aponta para uma reconfiguração estratégica do comércio exterior brasileiro em meio a um cenário global desafiador.

Abrindo novas rotas comerciais

Quem acompanha o fluxo do comércio internacional sabe que momentos de instabilidade em um mercado principal tendem a forçar uma busca por alternativas. Não é a primeira vez que o Brasil se vê obrigado a diversificar seus parceiros comerciais diante de barreiras impostas por grandes economias. Lembra do "tarifaço" do governo Trump em 2018? As empresas brasileiras, na época, também buscaram fôlego em outros continentes. Agora, a situação se repete, mas com uma vantagem significativa: o acordo Mercosul-UE, que entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio após mais de duas décadas de negociações.

Esse acordo prevê a redução gradual de tarifas para uma vasta gama de produtos, facilitando o acesso de bens brasileiros ao mercado europeu. "Cresceram as vendas do agro, com produtos como manga, café, mel. E também cresceram as vendas da indústria, com mais exportação de máquinas e motores", detalhou Alckmin em suas redes sociais, sinalizando que o impacto positivo se estende por diversos setores. Na minha leitura, essa é uma demonstração clara de que o Brasil tem potencial para ser um grande fornecedor global, desde que tenha acordos comerciais favoráveis em vigor.

O cerco americano e a resposta brasileira

Enquanto a Europa abre suas portas, os Estados Unidos parecem intensificar sua política de tarifas. Segundo o Financial Times, o presidente Donald Trump estaria preparando um novo "tarifaço" contra dezenas de países, com uma taxa global temporária de 10% prestes a expirar. Essa medida, que já havia afetado o Brasil com 25% em alguns produtos (com exceções importantes como carnes e café), e o Canadá com 50%, reflete uma estratégia americana de proteger sua indústria doméstica e, possivelmente, pressionar outros países em negociações comerciais. O governo brasileiro, por sua vez, busca mitigar os impactos.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) anunciou uma série de reuniões com os setores mais afetados para identificar demandas e definir medidas de apoio. O Plano Brasil Soberano, criado anteriormente em resposta a tarifas americanas, será ampliado. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo já dispõe de instrumentos para proteger empresas e empregos, uma fala que busca trazer tranquilidade aos mercados. A expectativa, no entanto, é de que a volatilidade nas relações comerciais com os EUA continue sendo um fator de atenção para o cenário de investimentos Brasil.

Consequências para as empresas brasileiras

Para as empresas brasileiras, a notícia é um misto de preocupação e oportunidade. Por um lado, o aumento das tarifas americanas pode encarecer produtos para exportação, afetando a competitividade e, em casos extremos, levando a processos de recuperação judicial se a margem de lucro for muito erodida. A imprevisibilidade das políticas de Trump também adiciona uma camada de incerteza que dificulta o planejamento de longo prazo e afugenta investimentos Brasil. A constante ameaça de novas taxas cria um ambiente instável, onde fusões e aquisições podem ser adiadas ou reavaliadas.

Por outro lado, o crescimento das exportações para a Europa surge como um sopro de esperança. A diversificação de mercados é uma estratégia fundamental para a resiliência das empresas brasileiras. Se o acordo Mercosul-UE se consolidar e as tarifas europeias continuarem a diminuir gradualmente, como previsto, o impacto positivo pode se estender, gerando mais empregos e renda no país. Acompanhar a evolução dessas negociações e as respostas dos concorrentes internacionais será crucial para entender o futuro do comércio exterior brasileiro. O que eu vejo é que, em macroeconomia, raramente há uma solução única. O que é um problema em um lado, pode se tornar uma porta aberta em outro, especialmente quando há negociações e acordos bem estruturados.