As tarifas recém-impostas pelos Estados Unidos ao Brasil já começam a mostrar suas garras, e dois estados brasileiros sentem o golpe com mais força: São Paulo e Santa Catarina. Juntos, eles concentram mais da metade do impacto financeiro dessas novas barreiras comerciais, segundo dados da ApexBrasil. A notícia chega em um momento delicado para a economia em 2026, e já acende um sinal de alerta sobre como isso pode afetar nosso cotidiano.

Impacto Concentrado em SP e SC

São Paulo, o motor econômico do país, responde por 41,6% do valor total das exportações brasileiras afetadas pelas tarifas americanas, o que representa cerca de US$ 3 bilhões. Para Santa Catarina, a situação é ainda mais crítica em proporção: nada menos que 68% de suas exportações para os EUA estão sob o novo imposto de 25%. Para quem vive e trabalha nesses estados, o recado é claro: a disputa comercial internacional pode se traduzir em um aperto na produção e, consequentemente, em oportunidades de negócio.

O setor madeireiro do Paraná também figura entre os mais expostos. Como acompanhamos em coberturas anteriores sobre flutuações no mercado de commodities, a dependência de um único mercado comprador sempre gera vulnerabilidade. A informação é que 30% da madeira importada pelos EUA vem do Brasil, e uma parcela expressiva disso é paranaense. Isso significa que, além das empresas locais, pode haver um efeito cascata na cadeia produtiva, impactando desde a indústria moveleira até a construção civil no mercado americano, o que, aliás, o presidente da ApexBrasil já sinalizou que pode, ironicamente, gerar mais inflação lá dentro.

Na minha leitura, essa concentração de impacto em poucas regiões e setores mostra como a economia brasileira, apesar de diversificada, ainda tem pontos sensíveis. É um reflexo do tipo de produto que exportamos e para onde o fazemos. Quem acompanha o fluxo de comércio exterior há anos sabe que essa dependência é um fantasma que sempre volta a assombrar em momentos de crise ou de políticas protecionistas.

O Pix na Mira de Trump: Uma Tática Política?

Em meio à discussão sobre tarifas, um detalhe incomum chamou a atenção: a inclusão do Pix na investigação do governo americano sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil. O sistema de pagamentos instantâneos, criado pelo Banco Central, que revolucionou as transações financeiras no país e se tornou referência mundial, agora é apresentado como um obstáculo para empresas dos EUA.

Essa narrativa, no entanto, encontra forte resistência de economistas renomados. Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, não hesitou em criticar a ação americana. Em sua análise, divulgada nesta segunda-feira (20/07/2026), Krugman classifica a iniciativa como uma tentativa de "punir o Brasil por esse sucesso". Para ele, oferecer um sistema de pagamento mais barato e eficiente não configura deslealdade comercial, mas sim uma conquista brasileira que desagrada setores americanos que não conseguiram replicar a mesma agilidade e alcance.

A perspectiva de Krugman é que essas tarifas, em vez de prejudicar o Brasil, podem acabar fortalecendo politicamente o presidente Lula. Ele argumenta que as tarifas terão um alcance econômico limitado, mas um impacto político considerável, especialmente se a justificativa para sua aplicação for tão questionável quanto a alegação contra o Pix. É um cenário que lembra outros momentos em que políticas comerciais americanas buscaram retaliar o avanço de economias emergentes, como vimos em ciclos anteriores com outros produtos.

O Que Esperar a Partir de Agora?

As novas tarifas americanas entram em vigor nesta quarta-feira (22/07/2026), e o governo brasileiro já sinaliza medidas para mitigar os efeitos. Um pacote de ampliação de crédito para as empresas afetadas e a busca ativa por novos mercados de exportação estão no radar. A Lei da Reciprocidade Econômica também é cogitada, embora sua aplicação prática ainda demande tempo.

Para o consumidor, o impacto direto pode demorar um pouco a se materializar. No entanto, a pressão sobre os exportadores pode levar a uma redução na oferta de certos produtos no mercado interno, ou, no extremo oposto, a um aumento nos custos de produção que acabam sendo repassados. Quem costuma observar a inflação no longo prazo sabe que choques externos, como tarifas, são um dos fatores que podem desestabilizar as projeções econômicas e gerar incertezas.

O Boletim Focus, que reúne as projeções de economistas, certamente trará ajustes em suas estimativas nas próximas semanas. A economia em 2026, que já vinha em um ritmo de recuperação gradual, agora precisa digerir mais essa variável externa. Acompanhar os desdobramentos dessa disputa comercial e as respostas do governo será crucial para entender os próximos capítulos da economia brasileira.