O que é a Super Quarta?

A "Super Quarta" é um termo utilizado no mercado financeiro para se referir ao dia em que dois importantes comitês de política monetária, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil e o Federal Open Market Committee (FOMC) do Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos, anunciam suas decisões sobre as taxas de juros de seus respectivos países. Essa coincidência de anúncios gera grande expectativa e volatilidade nos mercados globais, dada a influência dessas decisões nas economias brasileira e americana, e por consequência, na economia mundial.

Reuniões do Copom e do Fed

As reuniões do Copom ocorrem a cada 45 dias, aproximadamente, e duram dois dias. Nesses encontros, os membros do comitê analisam o cenário econômico nacional e internacional, as perspectivas para a inflação e o nível de atividade econômica, e votam sobre a taxa Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira. O objetivo principal do Copom é manter a inflação dentro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Paralelamente, o FOMC se reúne oito vezes ao ano para discutir a política monetária dos Estados Unidos. Assim como o Copom, o FOMC avalia o estado da economia americana, incluindo o mercado de trabalho, a inflação e o crescimento econômico, e decide sobre a taxa de juros de referência do país, a *federal funds rate*. As decisões do Fed têm um impacto significativo na economia global, pois afetam os fluxos de capitais, as taxas de câmbio e o comércio internacional.

Impacto no Mercado Financeiro

A Super Quarta é um evento de grande importância para o mercado financeiro, pois as decisões do Copom e do Fed podem influenciar diversos ativos, como:

  • Taxas de câmbio: A variação das taxas de juros pode tornar um país mais ou menos atraente para investidores estrangeiros, afetando a oferta e a demanda por sua moeda. Por exemplo, se o Copom eleva a Selic, o Brasil pode se tornar mais atraente para investidores que buscam retornos mais altos, o que pode valorizar o real em relação ao dólar.
  • Juros futuros: As expectativas em relação à trajetória futura da Selic e da *federal funds rate* são refletidas nos contratos de juros futuros, que são negociados na bolsa de valores. Esses contratos são utilizados por investidores para protegerem-se contra variações nas taxas de juros e para especular sobre seus movimentos.
  • Ações: As decisões sobre as taxas de juros podem afetar o desempenho das empresas listadas na bolsa de valores. Juros mais altos podem aumentar os custos de financiamento das empresas e reduzir o consumo, o que pode impactar negativamente seus lucros e, consequentemente, o preço de suas ações. Por outro lado, juros mais baixos podem estimular o crescimento econômico e impulsionar os lucros das empresas.
  • Títulos de renda fixa: A variação das taxas de juros afeta diretamente o preço dos títulos de renda fixa, como títulos públicos e privados. Quando a Selic sobe, o preço dos títulos prefixados tende a cair, pois os novos títulos emitidos oferecem retornos mais altos. Já os títulos indexados à Selic, como o Tesouro Selic, se tornam mais atraentes quando a taxa básica de juros aumenta.

Exemplo prático: Imagine que o Copom decide elevar a Selic em 0,5 ponto percentual (p.p.), de 13,25% para 13,75% ao ano. Essa decisão pode levar a uma valorização do real em relação ao dólar, pois o Brasil se torna mais atraente para investidores estrangeiros. Além disso, os contratos de juros futuros com vencimento em um ano podem subir, refletindo a expectativa de que a Selic permanecerá alta por um período prolongado. As ações de empresas endividadas podem sofrer uma queda, pois seus custos de financiamento aumentam. Já os títulos do Tesouro Selic se tornam mais atraentes, pois passam a oferecer um retorno maior.

Entendendo o Copom e a Selic

O que é o Copom?

O Comitê de Política Monetária (Copom) é o órgão do Banco Central do Brasil responsável por definir a política monetária do país. Ele é composto pelo presidente do Banco Central e pelos diretores da instituição. O Copom foi criado em 20 de junho de 1996, com o objetivo de aumentar a transparência e a credibilidade da política monetária brasileira.

As principais funções do Copom são:

  • Definir a meta para a taxa Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira.
  • Avaliar o cenário econômico nacional e internacional e as perspectivas para a inflação.
  • Divulgar as decisões de política monetária e as justificativas para essas decisões.

O que é a Taxa Selic?

A Taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela é a principal ferramenta utilizada pelo Banco Central para controlar a inflação. A Selic influencia todas as outras taxas de juros do país, como as taxas cobradas em empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras.

A Selic possui duas modalidades:

  • Meta Selic: É a taxa definida pelo Copom nas suas reuniões. Ela serve como referência para as operações de mercado aberto do Banco Central.
  • Selic Over: É a taxa média ponderada das operações de financiamento de um dia realizadas entre as instituições financeiras que utilizam títulos públicos federais como garantia. Essa taxa é o resultado prático das negociações diárias e tende a se manter próxima à Meta Selic.

Exemplo prático: Imagine que você decide fazer um empréstimo pessoal no banco. A taxa de juros que o banco irá cobrar dependerá, em grande parte, da Selic. Se a Selic estiver alta, o banco provavelmente cobrará uma taxa de juros mais alta, pois o custo do dinheiro para o banco também será maior. Da mesma forma, se você investir em um título de renda fixa indexado à Selic, como o Tesouro Selic, o seu rendimento será diretamente afetado pelas variações da taxa básica de juros.

Como o Copom Define a Selic?

O Copom define a Selic com base em uma análise criteriosa do cenário econômico e das perspectivas para a inflação. O comitê leva em consideração diversos fatores, como:

  • Nível de atividade econômica: Se a economia está crescendo muito rapidamente, o Copom pode elevar a Selic para esfriar a demanda e evitar o aumento da inflação. Por outro lado, se a economia está em recessão, o Copom pode reduzir a Selic para estimular o consumo e o investimento.
  • Inflação corrente e esperada: O Copom acompanha de perto os índices de inflação, como o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), e as expectativas de inflação do mercado. Se a inflação está acima da meta estabelecida pelo CMN, ou se as expectativas de inflação estão aumentando, o Copom pode elevar a Selic para conter a pressão inflacionária.
  • Política fiscal: A política fiscal do governo, que envolve o controle dos gastos públicos e a arrecadação de impostos, também é levada em consideração pelo Copom. Uma política fiscal expansionista, que aumenta os gastos públicos e/ou reduz os impostos, pode gerar pressão inflacionária e levar o Copom a elevar a Selic.
  • Cenário internacional: O Copom também analisa o cenário econômico internacional, incluindo o desempenho das principais economias do mundo, as taxas de juros de outros países e os preços das commodities. Esses fatores podem afetar a inflação e o crescimento econômico do Brasil.

Após analisar todos esses fatores, os membros do Copom votam sobre a Selic. A decisão é tomada por maioria simples e é divulgada em um comunicado à imprensa.

O Cenário Econômico Atual do Brasil

Para entender as possíveis decisões do Copom na Super Quarta, é fundamental analisar o cenário econômico atual do Brasil. Este cenário é composto por diversos indicadores, como a inflação, o crescimento do PIB e o mercado de trabalho.

Inflação e Metas de Inflação

A inflação é um dos principais indicadores acompanhados pelo Copom. No Brasil, a meta de inflação é definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e cabe ao Banco Central implementar a política monetária para cumprir essa meta. A meta é definida para o ano-calendário, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Exemplo prático: Em 2023, a meta de inflação definida pelo CMN é de 3,25%, com uma margem de tolerância de 1,5 p.p. para cima ou para baixo. Isso significa que o Banco Central deve tentar manter a inflação entre 1,75% e 4,75%. Se a inflação ultrapassar esse limite, o Banco Central pode ser cobrado a explicar os motivos do descumprimento da meta.

Para medir a inflação, são utilizados diversos índices de preços, como o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que é o índice oficial de inflação do Brasil, e o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado), que é utilizado para corrigir contratos de aluguel e outros contratos de longo prazo.

O comportamento recente da inflação tem sido um fator de preocupação para o Banco Central. Após um período de alta inflação em 2021 e 2022, a inflação tem mostrado sinais de desaceleração, mas ainda se mantém acima da meta estabelecida pelo CMN. Essa persistência da inflação tem levado o Copom a manter a Selic em patamares elevados.

Crescimento do PIB

O Produto Interno Bruto (PIB) é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos em um país durante um determinado período. É o principal indicador do nível de atividade econômica de um país.

O crescimento do PIB é um dos fatores levados em consideração pelo Copom na hora de definir a Selic. Se a economia está crescendo muito rapidamente, o Copom pode elevar a Selic para esfriar a demanda e evitar o aumento da inflação. Por outro lado, se a economia está em recessão, o Copom pode reduzir a Selic para estimular o consumo e o investimento.

O desempenho recente do PIB brasileiro tem sido modesto. Após um crescimento expressivo em 2021, impulsionado pela retomada da economia após a pandemia de Covid-19, o crescimento do PIB desacelerou em 2022 e a perspectiva para 2023 é de um crescimento ainda mais lento.

Exemplo prático: Se o PIB brasileiro crescer 1% em 2023, esse crescimento será considerado baixo em comparação com o crescimento de outros países emergentes. Um crescimento baixo do PIB pode indicar que a economia brasileira está enfrentando dificuldades, como baixo investimento, alta taxa de desemprego e baixa produtividade.

Mercado de Trabalho

O mercado de trabalho é outro indicador importante acompanhado pelo Copom. A taxa de desemprego, o nível de ocupação e a renda média dos trabalhadores são indicadores que refletem a saúde do mercado de trabalho.

Um mercado de trabalho aquecido, com baixa taxa de desemprego e aumento da renda média, pode gerar pressão inflacionária, pois aumenta o poder de compra da população e estimula o consumo. Nesse cenário, o Copom pode elevar a Selic para conter a pressão inflacionária.

O mercado de trabalho brasileiro tem mostrado sinais de recuperação nos últimos meses. A taxa de desemprego tem caído e o nível de ocupação tem aumentado. No entanto, a renda média dos trabalhadores ainda se mantém em patamares baixos.

Exemplo prático: Se a taxa de desemprego cair para 8% em 2023, esse será um sinal positivo para a economia brasileira. No entanto, se a renda média dos trabalhadores não aumentar, o consumo pode não ser impulsionado, o que pode limitar o crescimento do PIB.

Possíveis Decisões do Copom na Super Quarta

Diante do cenário econômico atual, o Copom tem três opções principais para a Super Quarta:

  • Manter a Selic no patamar atual.
  • Aumentar a Selic.
  • Reduzir a Selic.

Manutenção da Selic

A manutenção da Selic é uma opção que o Copom pode considerar se entender que a política monetária atual já está surtindo efeito no controle da inflação e que não há necessidade de novas medidas para conter a pressão inflacionária. Essa decisão pode ser tomada se o Copom avaliar que a inflação está em trajetória de queda e que as expectativas de inflação estão ancoradas em torno da meta estabelecida pelo CMN.

Argumentos a favor da manutenção da Selic:

  • A Selic já está em um patamar elevado, o que pode estar contribuindo para a desaceleração da atividade econômica.
  • A inflação tem mostrado sinais de desaceleração nos últimos meses.
  • A política fiscal do governo tem sido mais austera, o que pode ajudar a conter a pressão inflacionária.

Exemplo prático: Se o Copom decidir manter a Selic em 13,75% ao ano, essa decisão pode ser interpretada pelo mercado como um sinal de que o Banco Central está satisfeito com o progresso no controle da inflação e que não vê necessidade de novas altas da Selic. Essa decisão pode levar a uma queda dos juros futuros e a uma valorização dos ativos de risco, como as ações.

Aumento da Selic

O aumento da Selic é uma opção que o Copom pode considerar se entender que a inflação ainda está persistente e que as expectativas de inflação não estão ancoradas em torno da meta estabelecida pelo CMN. Essa decisão pode ser tomada se o Copom avaliar que a atividade econômica está resiliente e que há risco de que a demanda continue pressionando os preços.

Argumentos a favor do aumento da Selic:

  • A inflação ainda está acima da meta estabelecida pelo CMN.
  • As expectativas de inflação não estão ancoradas em torno da meta.
  • A atividade econômica tem se mostrado resiliente, o que pode gerar pressão inflacionária.

Exemplo prático: Se o Copom decidir aumentar a Selic em 0,25 ponto percentual (p.p.), para 14% ao ano, essa decisão pode ser interpretada pelo mercado como um sinal de que o Banco Central está determinado a controlar a inflação, mesmo que isso signifique sacrificar o crescimento econômico. Essa decisão pode levar a uma alta dos juros futuros e a uma desvalorização dos ativos de risco, como as ações.

Redução da Selic

A redução da Selic é uma opção que o Copom pode considerar se entender que a inflação está controlada e que a atividade econômica está fraca. Essa decisão pode ser tomada se o Copom avaliar que a inflação está em trajetória de queda sustentável e que as expectativas de inflação estão ancoradas em torno da meta estabelecida pelo CMN.

Argumentos a favor da redução da Selic:

  • A inflação está em trajetória de queda sustentável.
  • As expectativas de inflação estão ancoradas em torno da meta.
  • A atividade econômica está fraca, o que justifica um estímulo monetário.

Exemplo prático: Se o Copom decidir reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual (p.p.), para 13,50% ao ano, essa decisão pode ser interpretada pelo mercado como um sinal de que o Banco Central está confiante no controle da inflação e que está disposto a estimular o crescimento econômico. Essa decisão pode levar a uma queda dos juros futuros e a uma valorização dos ativos de risco, como as ações. No entanto, uma redução muito agressiva da Selic pode gerar desconfiança no mercado e levar a uma desvalorização do real.