O pregão desta segunda-feira (23) foi daqueles que exigem sangue frio do investidor. Enquanto algumas empresas comemoraram, outras amargaram perdas significativas, mostrando que, mesmo com a Selic em patamar elevado e as eleições se aproximando, a bolsa brasileira segue suscetível a notícias corporativas específicas.

Azul Voa Alto Após Capítulo 11

A grande estrela do dia foi a Azul (AZUL53), que viu suas ações dispararem mais de 30% após anunciar a saída do Chapter 11, o processo de recuperação judicial nos Estados Unidos. O movimento representou um alívio para os investidores, que acompanharam de perto a reestruturação financeira da companhia aérea. A notícia, divulgada na sexta-feira após o fechamento do mercado, gerou otimismo e impulsionou os papéis da empresa logo na abertura do pregão. A recuperação da Azul foi considerada a mais rápida entre as aéreas brasileiras que passaram pelo Chapter 11, um feito que agradou o mercado.

Apesar da forte alta de hoje, vale lembrar que a Azul ainda enfrenta uma forte desvalorização acumulada em 2026, com queda de 80,6%. Ou seja, um dia de euforia não apaga um histórico recente turbulento, e o investidor precisa ter cautela e analisar os fundamentos da empresa antes de tomar qualquer decisão.

Riachuelo Anuncia Follow-on e Ações Sofrem

Enquanto a Azul celebrava, a Riachuelo (RIAA3) viu suas ações caírem cerca de 3% após a notícia de que a empresa planeja lançar uma oferta primária de ações (follow-on) entre R$400 milhões e R$500 milhões. A reação do mercado é compreensível: um follow-on dilui a participação dos acionistas existentes, o que geralmente pressiona o preço das ações para baixo. É como se a empresa estivesse “emitindo mais pedaços de bolo”, diminuindo o tamanho da fatia de cada um.

Apesar da queda, o JPMorgan manteve a recomendação Overweight (exposição acima da média) para as ações da Riachuelo, com a justificativa de que a empresa está melhorando sua execução operacional. Segundo o banco, o follow-on deve aumentar o free float (percentual de ações em circulação no mercado) de 17% para algo entre 22% e 24%, com um preço médio de R$ 10,50 por ação. A empresa pretende utilizar os recursos captados para financiar a abertura de novas lojas e aumentar a liquidez das ações.

Desktop Despenca Após Negociação Frustrada com a Claro

Outra empresa que sentiu o peso das notícias negativas foi a Desktop (DESK3). As ações da provedora de internet despencaram mais de 10% após a informação de que as negociações para uma possível venda para a Claro não avançaram. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, divergências sobre preços e termos contratuais inviabilizaram o acordo, jogando um balde de água fria nas expectativas dos investidores.

A Desktop já havia confirmado, em outubro do ano passado, que mantinha conversas com a Claro, mas ressaltou que as tratativas não eram vinculantes e que não havia acordo sobre preço ou estrutura. A frustração da venda impactou negativamente o valor de mercado da empresa, que girava em torno de R$ 1,84 bilhão, embora a expectativa fosse de que o negócio avaliasse a Desktop em mais de R$ 2 bilhões. É importante lembrar que a Desktop já havia passado por negociações para aquisição em 2024, com a Telefonica Brasil, que também não se concretizaram.

Smart Fit e o Block Trade Bilionário

Ainda no noticiário corporativo, as ações da Smart Fit (SMFT3) recuaram 2% em um dia atípico, com um volume de negociação duas vezes maior que o da Vale (VALE3). O motivo? Um block trade de R$ 900 milhões realizado pela gestora Pátria, que vendeu uma fatia considerável de sua participação na rede de academias. Segundo apuração do jornal Valor, a Pátria vendeu 42,4 milhões de ações, um movimento que costuma derrubar o preço do papel de uma empresa listada. É como se um grande acionista resolvesse “liquidar” parte de seus investimentos, gerando um excesso de oferta no mercado.

O Que Esperar?

O mercado financeiro é dinâmico e imprevisível, e o pregão de hoje é um bom exemplo disso. Enquanto a saída do Chapter 11 impulsionou as ações da Azul, notícias sobre follow-on e negociações frustradas derrubaram os papéis da Riachuelo e da Desktop. A venda em bloco da Smart Fit também influenciou o desempenho da empresa. A lição que fica é que o investidor precisa estar atento aos fundamentos das empresas, acompanhar o noticiário corporativo e, acima de tudo, ter uma estratégia bem definida para lidar com a volatilidade do mercado. E, claro, diversificar a carteira para não colocar todos os ovos na mesma cesta.

Com a Selic ainda elevada, as eleições se aproximando e a economia brasileira mostrando sinais de recuperação, o cenário para os próximos meses promete ser desafiador. Mas, como dizem, em meio à turbulência, surgem as melhores oportunidades. O importante é estar preparado para aproveitá-las.