A quarta-feira foi de olho nos primeiros números da temporada de resultados do primeiro trimestre de 2026. Com o mercado da B3 já fechado às 17h, o que sobrou para analisar foi o impacto das notícias do dia, que trouxeram um misto de surpresas e cautela para a carteira do investidor brasileiro. É como aquela primeira mordida num prato novo: às vezes surpreende, às vezes te faz pensar duas vezes. E neste 1T26, o cardápio veio variado.

De um lado, tivemos empresas que entregaram resultados que animaram os investidores, mostrando que o planejamento e a disciplina podem fazer a diferença. Do outro, setores que já vinham com um ponto de interrogação sobre a cabeça tiveram suas preocupações confirmadas, com as mudanças regulatórias mostrando sua força. O ambiente global também deu as caras, com gigantes internacionais apresentando seus números e, indiretamente, ditando o ritmo de companhias brasileiras.

Movida acelera e mostra fôlego nos resultados do 1T26

Começando pelas boas notícias, a Movida (MOVI3) foi, sem dúvida, um dos destaques do dia. A locadora de veículos divulgou resultados preliminares para o primeiro trimestre que vieram acima das expectativas do mercado. O lucro líquido, por exemplo, deu um salto impressionante de 59% em relação ao ano anterior, alcançando R$ 125 milhões – 43% acima do que os analistas esperavam. É um sinal claro de que a empresa está conseguindo equilibrar a balança, mesmo em um cenário que exige jogo de cintura.

A reação da ação foi imediata, como um carro esportivo que sai da inércia. Logo na abertura do pregão, a MOVI3 disparou, chegando a sua máxima intradia por volta das 10h25. Mas, como um bom motorista sabe, nem sempre a arrancada é tudo. A euforia inicial arrefeceu um pouco ao longo da manhã, e o papel encerrou o dia com uma leve correção. Mas isso não tira o mérito dos números.

Para a XP Investimentos, a alta no lucro reflete um ambiente operacional sólido da companhia, que conseguiu sustentar um lucro acima do previsto, mostrando uma maior disciplina de preços nos segmentos de locação, combinada com uma demanda que se mostrou resiliente. Em outras palavras, a Movida soube cobrar o preço certo e os clientes continuaram vindo, uma combinação que faz a alegria de qualquer gestor e, claro, do investidor. O JP Morgan também destacou que a Movida já havia projetado um lucro entre R$ 110 milhões e R$ 130 milhões, o que justifica a boa resposta do mercado. O mais interessante para quem olha a longo prazo é a comparação: a ação da Movida está sendo negociada a 10,3x P/L (preço sobre lucro), enquanto a sua principal concorrente, a Localiza (RENT3), está em 13,9x. Isso pode indicar uma janela de oportunidade para reavaliar a estratégia de alocação de capital neste segmento.

Setor de Educação: Alerta vermelho com novas regras

Se a Movida trouxe um sopro de otimismo, o setor de educação, por outro lado, acendeu um sinal de alerta. Analistas já previam um cenário de pressão para os resultados do 1T26, e as previsões se confirmam. É como tentar estudar para uma prova com o regulamento mudando a cada semana: a dificuldade aumenta para todo mundo.

O pano de fundo são as mudanças regulatórias recentes, que impactaram diretamente o ensino digital (DL) e, por consequência, a captação de novos alunos. Segundo uma análise do Bank of America (BofA), as ações do setor devem ter resultados pressionados no trimestre. Mas nem tudo é igual dentro do mesmo setor. O Goldman Sachs, por exemplo, vê a Ânima Educação (ANIM3) um pouco mais protegida nessa tempestade. A razão? Um ciclo de captação mais saudável no início de 2026 e uma menor exposição ao ensino digital. Para o banco, a Ânima deve ter um desempenho ligeiramente superior, com um crescimento projetado de 5,6% na receita líquida.

Já para Cogna (COGN3) e Yduqs (YDUQ3), a perspectiva do Goldman Sachs é de uma dinâmica de rentabilidade mais fraca, o que pode pesar na percepção dos investidores no curto prazo. A Afya (AFYA) também deve sentir a pressão nas margens. Para quem tem papel dessas empresas na carteira, é hora de ficar de olho nos próximos balanços e reavaliar os riscos, considerando a forma como cada uma está se adaptando ao novo cenário regulatório.

WEG no radar: O termômetro global da ABB

Outro ponto de interesse, especialmente para quem acompanha as indústrias, veio de fora do país, mas com reflexos por aqui. A multinacional suíça ABB divulgou um desempenho positivo no 1T26, com crescimento de 11% nas receitas e um aumento de 24% nos pedidos. O pulo do gato foi a divisão de Eletrificação, que viu os pedidos subirem 44%, impulsionados por data centers.

Mas o que isso tem a ver com o Brasil? Muita coisa. O desempenho da ABB serve como um termômetro para a demanda que pode impactar a WEG (WEGE3), nossa gigante de motores e equipamentos elétricos. Afinal, as duas empresas atuam em mercados globais similares, o que faz dos resultados da ABB um bom indicador do volume de pedidos e das pressões de custos que a WEG pode enfrentar.

Analistas do Bradesco BBI, citados pela InfoMoney, apontam que o estoque de pedidos da ABB chegou a US$ 27,5 bilhões e que a gestão da suíça reiterou a demanda forte, especialmente por investimentos em infraestrutura e redes nos Estados Unidos. Ou seja, o cenário global está aquecido para o setor.

No entanto, o JPMorgan havia colocado a WEG em “observação negativa” antes dos resultados da ABB, projetando um resultado mais morno para o 1T26 da companhia brasileira. Essa divergência de visões reforça que, embora as tendências globais sejam importantes, cada empresa tem sua própria dinâmica e desafios. Para o investidor, isso significa que a análise dos balanços corporativos da WEG será crucial para entender se o bom vento lá de fora consegue empurrar os resultados por aqui.

Um cenário de cautela e oportunidades

Olhando para o resumo do dia e as perspectivas para os próximos resultados 1T26, fica claro que a temporada de balanços corporativos será um campo minado de informações. Como apontou o Money Times, há uma cautela geral nas expectativas, com o mercado buscando por surpresas positivas que, talvez, sejam mais raras do que o esperado. Isso não é necessariamente ruim; significa que as empresas com fundamentos sólidos e boa gestão se destacarão ainda mais.

Além das empresas brasileiras, grandes nomes internacionais como a AT&T e a Boeing também apresentaram resultados acima do esperado, mostrando que, globalmente, alguns setores estão resistindo bem. Esses resultados, mesmo de companhias estrangeiras, contribuem para o sentimento geral do mercado financeiro e podem influenciar o apetite por risco dos investidores.

Para o investidor, a lição que fica é a de sempre: diversificação e análise aprofundada são as melhores ferramentas. Entender o que movimentou o pregão e, mais importante, o que está por vir nos balanços, é essencial para tomar decisões estratégicas e ajustar a carteira para o que o restante do ano nos reserva. Não é hora de apostar todas as fichas em um único cavalo, mas sim de montar um time que saiba correr em diferentes terrenos.