A euforia em torno da inteligência artificial parece ter encontrado uma resistência. Nesta sexta-feira (26), o setor de tecnologia sente o peso de notícias que acendem um alerta para investidores. A BitGo, gigante da segurança em criptomoedas, anunciou a demissão de quase 15% de sua força de trabalho, um movimento justificado pela necessidade de 'concentrar talentos em IA', segundo seu CEO. Ao mesmo tempo, o mercado de Wall Street reage negativamente à possibilidade de a OpenAI, criadora do ChatGPT, adiar sua tão esperada oferta pública inicial de ações (IPO) para o próximo ano.

Quem acompanha o mercado de tecnologia sabe que esse cenário de cautela não é totalmente novo. Em 2023, vimos algumas empresas de cripto passarem por reestruturações, e agora, mesmo com o foco em IA, os cortes na BitGo mostram que nem sempre o crescimento exponencial se traduz em estabilidade de quadro. A empresa justificou a medida como pontual, mas o mercado reage como se fosse um reflexo de um ambiente mais delicado para o setor. Mike Belshe, o CEO, declarou que a companhia precisa ser mais ágil e focada nas áreas que mais importam: segurança, negociação, stablecoins, liquidação financeira e, claro, infraestrutura impulsionada por IA. A conta, olhando os números de 2025, sugere que cerca de 90 funcionários foram afetados, apesar de 51 vagas ainda estarem abertas em diversos países.

Na minha leitura, o adiamento do IPO da OpenAI é um indicativo mais forte do que qualquer outra coisa. O jornal New York Times reportou que a empresa considera postergar a listagem por conta do desempenho recente das ações ligadas à inteligência artificial. É a velha história de que o ímpeto inicial de um setor pode esfriar quando os resultados concretos e a rentabilidade em escala demoram a se materializar. Lembre-se que, em 2022, tivemos um boom em criptomoedas seguido de um inverno rigoroso. O que acontece agora com a IA é uma adaptação, e nem todos os envolvidos conseguem manter a velocidade ou mudar de direção adequadamente. O que acontece agora com a IA é uma adaptação, e nem todo mundo consegue acompanhar o ritmo sem ajustar a rota.

Essa apreensão já se refletiu nas bolsas asiáticas nesta manhã, que fecharam em forte queda, com muitos investidores realizando lucros em ações de tecnologia. O Kospi sul-coreano, por exemplo, teve seu segundo circuit breaker na semana, com gigantes como Samsung Electronics e SK Hynix sofrendo perdas expressivas. Em Tóquio, o Nikkei também sentiu o baque, com quedas notáveis em empresas como SoftBank Group e Advantest. A onda de vendas tem como pano de fundo o temor de que o aumento de custos na cadeia de suprimentos – impulsionado por logística, componentes e tensões geopolíticas – comece a ser repassado aos consumidores. A própria Apple, com seus aumentos de preço em produtos como MacBooks e iPads, reforçou esse receio, o que pode impactar a demanda futura.

O que mexe com Wall Street hoje?

Os índices de Wall Street acompanharam essa tendência de baixa após a abertura. O Dow Jones opera em queda de 0,43%, enquanto o S&P 500 recua 0,63%. O Nasdaq, que concentra boa parte das empresas de tecnologia, sente o golpe com mais força, caindo 1,01% no momento. A fala do CEO da BitGo e a notícia sobre a OpenAI dissipam a euforia que vinha sustentando parte do mercado.

Para nós, investidores brasileiros, o impacto pode vir de forma indireta. Se as empresas de tecnologia americanas, que são referência global, estão sob pressão, isso pode afetar o fluxo de capital estrangeiro para mercados emergentes, incluindo o nosso. Além disso, empresas brasileiras ligadas a tecnologia ou que dependem de componentes tecnológicos podem sentir essa desconfiança no preço de suas ações. No mercado de câmbio, essa aversão a risco pode pressionar o dólar, embora o Ibovespa em dólar, que acompanhamos de perto aqui no The Brazil News, já venha demonstrando alguma fraqueza nas últimas semanas, em linha com esse receio geral.

A apuração do The Brazil News mostra que essa onda de vendas em tecnologia não é um evento isolado. Desde o início da semana, observamos uma realização de lucros generalizada, impulsionada por preocupações com o encarecimento de chips, gastos elevados das companhias diante da perspectiva de juros mais altos, e produtos mais caros para o consumidor final. Essa conjunção de fatores exige atenção redobrada. Na minha leitura, o mercado está em fase de ajuste de expectativas. O hype da IA é real e o potencial é gigantesco, mas a rentabilidade e a sustentabilidade desses avanços precisam ser demonstradas de forma mais concreta para justificar os múltiplos atuais em muitas dessas ações.

É importante monitorar os próximos passos da OpenAI e como outras gigantes do setor de semicondutores e tecnologia responderão a essa pressão. A pergunta que fica é: será que esse movimento é uma correção saudável ou o prenúncio de um inverno tecnológico mais longo? A diversificação de portfólio, focando em setores menos voláteis e com fundamentos sólidos, continua sendo o melhor antídoto contra esses sobressaltos do mercado. Afinal, quem quer ter todos os ovos na cesta da IA agora pode se dar mal se o otimismo excessivo der lugar à realidade dos negócios.