Por Lucas Mendonça, jornalista de economia do The Brazil News

O fim de semana é um bom momento para a gente dar uma olhada mais a fundo no que moldou os mercados na última semana e projetar os próximos passos. E nesta semana que passou, dois temas dominaram o noticiário internacional, com reflexos que sentimos aqui também: a moeda japonesa, o iene, mergulhando em níveis não vistos há décadas, e a sangria de capital na economia chinesa.

Iene em queda livre e o temor do "carry trade"

O iene japonês parece ter decidido testar os limites da resistência na última semana, operando em patamares próximos de 162 unidades por dólar. Isso representa o menor valor desde 1986, ou seja, um movimento que não se via há 40 anos. Esse desempenho não é apenas um detalhe para os bolsos dos turistas que planejam visitar o Japão; ele acende um sinal de alerta em Wall Street e, por tabela, em mercados como o nosso.

O principal receio é que o famoso carry trade do iene, uma estratégia popularizada pela manutenção de juros historicamente baixos no Japão, comece a desmoronar. Basicamente, investidores pegam empréstimos em ienes baratos, convertem para dólares e buscam retornos maiores em ativos americanos, como ações e títulos. Essa estratégia injetou liquidez e sustentou preços de ativos nos Estados Unidos por um bom tempo. Agora, com o iene em queda livre e a possibilidade de o governo japonês intervir para tentar estabilizá-lo (o que poderia significar alta de juros), o risco é de um desmonte abrupto dessas posições, provocando ondas de venda que podem se espalhar.

Quem acompanha o mercado internacional há algum tempo, como eu, já viu cenários parecidos se desenrolarem. Lembro de movimentos bruscos no euro lá por 2015 quando a Grécia estava à beira de um calote, que também geraram pânico e fugas de capital. A dinâmica pode ser diferente, mas o efeito cascata de desvalorizações de moedas fortes e a busca por liquidez costumam seguir um padrão de nervosismo.

China: A fuga de capitais e o impacto nos emergentes

Enquanto o Japão lida com sua moeda, a China continua a ser um ponto de atenção para os mercados emergentes. O Instituto de Finanças Internacionais (IIF) divulgou dados preocupantes: em junho, os fluxos para economias emergentes ficaram negativos, em grande parte puxados pela saída de capital da China. Foram registradas saídas líquidas de US$ 17,8 bilhões em junho, um valor menor que em maio, mas que aponta para uma tendência de aversão aos ativos chineses.

O movimento de fuga de capital da China não é novidade, mas a persistência acende um alerta. A demanda por renda fixa em mercados emergentes tem se fortalecido, o que ajudou a amortecer o impacto das saídas nas ações. Contudo, as saídas líquidas em renda variável foram expressivas, totalizando US$ 46,1 bilhões em junho. Para o investidor brasileiro, isso significa que o apetite por risco global, um dos motores que impulsionam o fluxo de capital estrangeiro para o Brasil, parece estar mais contido. Menos apetite por risco global geralmente se traduz em maior cautela com ativos de mercados emergentes, que são vistos como mais voláteis.

Na minha leitura, o cenário chinês é um daqueles que exigem acompanhamento constante. As políticas internas do país, as tensões geopolíticas e a força da sua recuperação econômica são fatores que impactam diretamente o fluxo de investimentos em economias como a nossa. É como observar uma grande embarcação em movimento: mesmo de longe, suas ondas podem chegar até a nossa costa.

Armínio Fraga no Fed: um olhar do Brasil para o mundo

Em um cenário de tantas mudanças e incertezas globais, a participação de um nome brasileiro em um grupo de trabalho do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, ganha destaque. Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil, integra uma das cinco equipes externas criadas pelo Fed para revisar suas políticas e atuação. Especificamente, ele fará parte de um grupo focado em analisar os impactos da inteligência artificial na economia americana.

Essa é uma notícia relevante, pois demonstra que o Brasil, através de seus talentos, também tem voz e contribui para as discussões que moldam as políticas monetárias globais. A inteligência artificial é, sem dúvida, um dos grandes vetores de transformação econômica para as próximas décadas, e a forma como bancos centrais como o Fed a encararem terá repercussões globais. Para nós, investidores brasileiros, ter um compatriota atuando em discussões tão centrais pode nos dar uma perspectiva única sobre os rumos que a economia mundial pode tomar.

Perspectivas para a semana e o bolso do investidor

Olhando para a semana que se inicia, a volatilidade internacional deve continuar sendo uma palavra de ordem. Acompanharemos de perto qualquer sinal de intervenção japonesa para defender o iene e novas divulgações sobre a economia chinesa. No front interno, a expectativa é que a política econômica continue sob os holofotes, com especial atenção para os próximos passos do governo em relação à inflação e ao arcabouço fiscal.

Para o investidor, o cenário sugere cautela e uma boa dose de diversificação. A renda fixa, que tem se mostrado um porto seguro em meio à incerteza, pode continuar sendo uma opção interessante para proteger o patrimônio. Na renda variável, a seleção criteriosa de ativos com fundamentos sólidos e bom potencial de crescimento se torna ainda mais importante. O investidor que já possui posições em ativos expostos ao mercado internacional deve estar atento à variação das moedas e ao fluxo de capitais. Para quem está começando, este é um momento para aprender e construir uma base sólida, sem pressa, entendendo os riscos e oportunidades que cada movimento global e local traz para a sua carteira.