Preparem os talheres, porque o açúcar pode ficar mais caro por um bom tempo. A Índia, que já foi o segundo maior exportador mundial deste commodity, sinaliza que suas exportações deverão ser bem mais tímidas pelos próximos anos. Se você acompanha o mercado de commodities, sabe que essa notícia não é pouca coisa.

A dupla dinâmica por trás dessa redução na oferta global são dois fatores que já ouvimos falar bastante: o El Niño e a demanda por biocombustíveis. O El Niño, com suas condições climáticas imprevisíveis, tem prejudicado o cultivo da cana-de-açúcar na Índia, diminuindo a matéria-prima disponível. Ao mesmo tempo, o país tem apostado alto na produção de etanol a partir da cana, o que, naturalmente, desvia parte da produção que antes ia para o mercado de açúcar.

Na minha leitura, o governo indiano está jogando um jogo de xadrez complexo. Por um lado, precisa garantir o abastecimento interno, já que o açúcar é um item politicamente sensível e muito consumido por lá. Por outro, busca se posicionar na transição energética com o etanol. O resultado é um cenário onde exportar açúcar se torna menos atraente, e as consequências para os importadores na Ásia, África e Oriente Médio são diretas: menor oferta e preços mais altos.

Isso, para nós, investidores, significa um sinal claro de atenção para setores que se beneficiam de commodities com oferta restrita. Quem acompanha o mercado de grãos e açúcares sabe que a ausência de um player tão importante como a Índia reverbera em todo o globo. É um padrão que já vimos se repetir com outras commodities em momentos de choque de oferta: o preço sobe para o consumidor final, mas pode ser uma oportunidade para quem está posicionado nos ativos corretos.

Enquanto isso, no nosso quintal verde e amarelo, as notícias do agronegócio trazem um alento diferente. A Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) elevou a previsão de processamento de soja do Brasil para um recorde de 63 milhões de toneladas em 2026. Isso é um reflexo direto da safra robusta que colhemos e da demanda firme por farelo e óleo de soja. A associação, que representa as grandes tradings e indústrias, agora espera que esse esmagamento de soja seja 4,3 milhões de toneladas maior do que na temporada anterior.

Essa capacidade de resposta da indústria brasileira diante de uma safra recorde é algo que o mercado B3 já precifica em parte. A Abiove manteve a projeção de exportações de soja em 114,1 milhões de toneladas, mostrando que o Brasil se consolida cada vez mais como o grande protagonista mundial da oleaginosa. Para investidores em empresas ligadas ao setor de agro, como processadores e exportadores, esse cenário de alta demanda e produção recorde é música para os ouvidos.

Em meio a esses movimentos globais e locais, o mercado B3 opera hoje com um certo otimismo pontual. A Cury (CURY3), por exemplo, que atua no setor de Real Estate, tem mostrado um desempenho interessante. Com uma variação positiva de +1.68% hoje e acumulando +15.36% no mês, a construtora chama atenção. Na sexta-feira, suas ações fecharam a R$ 33,27, e a Ágora Investimentos, inclusive, sugere compra para operações de day trade com potencial de ganho de 1,47%. Para nós, que acompanhamos o setor, essa resiliência da Cury, mesmo diante de um cenário macroeconômico que pede cautela, é um sinal de força. Desde 2023, vimos o setor imobiliário passar por diferentes ondas, mas empresas com boa gestão e foco em segmentos específicos, como a Cury, conseguem navegar essas águas.

Por outro lado, a Ânima Holding (ANIM3), do setor de Consumer Defensive, tem apresentado um caminho mais desafiador, com desvalorização no mês e no ano. A Ágora também sugere venda para operações de day trade com potencial de ganho de 1,47% para esta ação. É um lembrete de que nem todos os setores ou empresas seguem a mesma trajetória, e a seleção cuidadosa de ativos continua sendo crucial.

O que tudo isso nos diz para os próximos dias? A ausência prolongada da Índia no mercado de açúcar é um fator que continuará no radar, pressionando preços e oferecendo oportunidades para quem souber identificar as empresas certas. No agronegócio brasileiro, a força da soja deve se manter, beneficiando os grandes players. E na bolsa, o desempenho individual das ações, como o da Cury, mostra que há valor sendo criado mesmo em mercados voláteis. Fiquem de olho nos comunicados das empresas e nas projeções para entender os próximos passos de cada setor.