O clima nos mercados globais, e por consequência no nosso, mudou drasticamente em poucas horas. Nesta sexta-feira (24/07/2026), o que antes parecia uma caminhada tranquila rumo a mais um corte na taxa Selic em setembro, agora se vê em xeque. A culpa? Uma combinação explosiva de tensões geopolíticas no Oriente Médio e uma guinada surpreendente na postura do Federal Reserve, o banco central americano.

Avara aversão ao risco dita o tom do pregão

Quem acompanha o noticiário internacional desde a noite de ontem já sentiu o impacto. A escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, com promessas de retaliação militar e ataques a petroleiros, fez o petróleo Brent disparar novamente, ultrapassando a marca psicológica de US$ 100 o barril. Esse movimento, pra mim, é um sinal clássico de que o mercado entra em modo de cautela. Investidores correm para ativos considerados mais seguros, como o próprio dólar, e deixam de lado, momentaneamente, apostas em mercados emergentes que dependem de um ambiente de baixa volatilidade.

Aqui no Brasil, essa aversão ao risco global se traduz em um Ibovespa que, neste momento, opera em queda. As ações cíclicas, mais sensíveis a esse tipo de turbulência macroeconômica, são as mais afetadas. Vimos ontem (quinta-feira, 23) Hapvida (HAPV3) e Azzas 2154 (AZZA3) figurarem entre as maiores baixas, um reflexo direto dessa pressão vinda de fora. Por outro lado, a Vale (VALE3) conseguiu estender seus ganhos, em parte por reações a notícias corporativas específicas, mas mesmo os pesos-pesados do índice sentiram o aperto, com o Índice Financeiro (IFNC) em queda.

Juros globais em alta: a Selic em setembro vira dúvida

A grande reviravolta do dia, no entanto, está na precificação da Selic. Se até ontem o mercado ainda cogitava um corte de 50 pontos-base em setembro – com as opções do Copom indicando uma chance de 52% de algum corte na taxa básica –, hoje a história é outra. A disparada dos juros globais, impulsionada pelas tensões e pelo fantasma da inflação voltando com força, fez o mercado zerar as apostas em um novo afrouxamento monetário por aqui no mês que vem.

Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, a probabilidade de o Federal Reserve subir os juros nos EUA em setembro superou 80%. Isso é um balde de água fria nas expectativas de que o BC americano pudesse manter a política monetária folgada por mais tempo. Lembro que em 2020 vimos algo parecido, onde um choque externo forçou o Banco Central americano a rever seus planos, e isso reverberou no mundo todo. A diferença agora é que o contexto de inflação já é mais presente.

Na minha leitura, o Banco Central brasileiro, que já vinha sinalizando cautela em suas últimas decisões, terá ainda mais motivos para manter a taxa Selic em 14,25% ao ano em setembro. O Banco Central dos EUA, ao que tudo indica, vai na contramão do que esperávamos para o Brasil. Se o Fed sobe juros, o fluxo de capital para mercados emergentes tende a diminuir, e um corte na Selic nesse cenário seria um convite para a fuga de dólares, pressionando ainda mais a inflação interna. É um jogo de xadrez delicado, e o BC brasileiro, ao que parece, prefere defender o tabuleiro a arriscar um lance ousado agora.

Dólar acima de R$ 5,08: o efeito em sua carteira

E o reflexo no nosso bolso? O dólar à vista, que vinha em uma sequência de quedas, interrompeu essa trajetória. Nesta quinta-feira (23), a moeda americana encerrou o dia negociada a R$ 5,0839, em alta de 0,64%. A força do dólar no exterior, com o índice DXY subindo, e o temor de novos choques inflacionários em função do petróleo, jogam a favor da valorização da divisa americana contra o real.

Para você, investidor, isso significa um alerta em dobro. Primeiro, que a inflação pode voltar a dar as caras com mais força, corroendo o poder de compra do seu dinheiro. Segundo, que seus investimentos em ativos atrelados ao dólar, ou mesmo a importação de produtos, podem ficar mais caros. Quem tem planos de viajar para o exterior, por exemplo, pode sentir o peso dessa alta de forma mais acentuada.

A boa notícia, se é que podemos chamar assim, é que o Banco Central tem ferramentas para intervir e tentar conter a volatilidade excessiva do câmbio. Mas, neste momento, o cenário global dita as regras. O foco agora deve ser em entender como essa nova dinâmica de juros globais e incertezas geopolíticas afeta a sua estratégia. Reavaliar o percentual de exposição a ativos de risco e, quem sabe, reforçar posições em renda fixa com boa proteção contra a inflação, podem ser passos importantes. Afinal, o mercado financeiro é como o mar: às vezes calmo, às vezes uma tempestade. E quem está preparado, navega com mais segurança.