O mercado automotivo brasileiro respira um novo fôlego com o lançamento oficial do programa Move Brasil nesta sexta-feira (19). Voltado para motoristas de aplicativo e taxistas, a iniciativa do governo federal oferece condições facilitadas de financiamento para a aquisição de veículos novos, injetando R$ 30 bilhões em crédito com taxas de juros abaixo das praticadas usualmente. A expectativa é de um impacto significativo nas vendas, o que naturalmente gera olhares atentos sobre as empresas do setor.

Um impulso nas vendas

Com mais de 600 mil inscritos até o momento, o programa Move Brasil tem o potencial de impulsionar as vendas de automóveis leves em até 15%, segundo estimativas da consultoria Bright Consulting. A própria Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) já sinaliza a possibilidade de revisar para cima suas projeções de vendas para 2026, com uma atualização prevista para julho. A entidade estima que o Move Brasil possa resultar em cerca de 200 mil unidades licenciadas, um volume que representa, em termos práticos, aproximadamente um mês de vendas.

As condições de financiamento são, de fato, um chamariz. As taxas de juros podem chegar a 0,99% ao mês para homens e 0,91% ao mês para mulheres, com prazos de até 72 meses e carência de seis meses. Há ainda uma reserva mínima de R$ 3 bilhões para mulheres e outros R$ 3 bilhões para taxistas, montantes que podem ser ampliados conforme a demanda. O financiamento abrange carros novos com valor de até R$ 150 mil, incluindo modelos flex, híbridos flex, elétricos ou movidos a etanol, desde que façam parte das montadoras (TUPY3) habilitadas no Programa Mover.

Montadoras na mira

Diante desse cenário aquecido, as montadoras brasileiras tendem a ser as maiores beneficiadas. O aumento na demanda por veículos novos pode significar uma menor necessidade de oferecer descontos agressivos, o que, por consequência, tende a melhorar a precificação dos seminovos no mercado secundário. A possibilidade de um volume maior de licenciamentos é um fator positivo para empresas que dependem diretamente da produção e venda de automóveis.

Impacto nas locadoras: uma visão mais granular

Para empresas como Localiza (RENT4) e Movida (MOVI3), o programa Move Brasil não deve trazer um impacto tão estrondoso quanto para as montadoras. A análise do Bradesco BBI, por exemplo, sugere um impacto marginal de cerca de 2% para a Localiza (RENT4) e de apenas 1% para a Movida. Isso ocorre porque, embora o programa possa impulsionar a compra de veículos, o foco principal não é a frota de locadoras (MOVI3). No entanto, o aquecimento geral do setor e a potencial melhora nos preços de seminovos podem trazer benefícios indiretos.

É importante notar que a dinâmica do mercado de locadoras é mais complexa. Elas operam com frotas próprias, negociando em grande escala com as montadoras e gerenciando a revenda de seus veículos usados. Um aumento na demanda por carros novos pode, em um primeiro momento, diluir o foco no mercado de locação, mas também pode criar oportunidades de renovação de frota a custos potencialmente mais interessantes, dependendo das negociações.

Perspectivas e desafios

O programa Move Brasil é uma aposta do governo para estimular a economia e modernizar a frota circulante, beneficiando tanto o consumidor quanto o setor produtivo. A meta de gerar 200 mil unidades licenciadas é ambiciosa e, se alcançada, trará reflexos positivos para a receita das montadoras e para a cadeia produtiva de autopeças.

Para os investidores, a movimentação no setor automotivo é um ponto a ser observado. A análise de ações de empresas como Localiza e Movida deve levar em conta não apenas o impacto direto do Move Brasil, mas também a gestão de suas frotas, as taxas de utilização, a rentabilidade por carro e as estratégias de desinvestimento. A forte concorrência e a capacidade de adaptação às novas tecnologias, como os veículos elétricos, continuam sendo fatores cruciais para o sucesso a longo prazo dessas empresas.

Enquanto o programa se desenrola, é prudente acompanhar os dados de licenciamento e as divulgações das empresas. O setor automotivo é sensível a ciclos econômicos e a políticas governamentais, e o Move Brasil representa um capítulo importante nessa história.