A Vale (VALE3) apresentou um balanço do quarto trimestre de 2025 que, à primeira vista, assustou: um prejuízo de US$ 3,8 bilhões. Mas, como acontece com frequência no mundo dos investimentos, nem tudo é o que parece. O resultado foi fortemente influenciado por baixas contábeis em suas operações de metais básicos no Canadá, que somaram US$ 3,4 bilhões. Excluindo esses efeitos, a companhia teria apresentado um lucro líquido de US$ 1,464 bilhão, um aumento de 68% em relação ao ano anterior.

O que pesou no balanço da Vale?

As baixas contábeis, ou impairment, representam um ajuste no valor de um ativo no balanço da empresa. Imagine que você tenha um carro que valia R$ 50 mil, mas, após um acidente, o valor de mercado dele caiu para R$ 30 mil. O impairment seria essa diferença de R$ 20 mil. No caso da Vale, a revisão para baixo das premissas de preço de longo prazo do níquel foi um dos motivos para a baixa contábil. Além disso, a empresa retirou do balanço um "abatimento" de imposto que esperava receber, no valor de US$ 2,8 bilhões.

O lado bom da moeda: cobre e dividendos

Apesar do prejuízo, a Vale parece estar otimista para 2026. O CFO da companhia, Marcelo Bacci, afirmou que o ano começou com um "potencial de geração de caixa muito bom", impulsionado tanto pelo desempenho operacional da empresa quanto pelos preços de mercado. E essa geração de caixa pode destravar um gatilho muito aguardado pelos investidores: dividendos extraordinários.

Afinal, a política de dividendos da Vale está atrelada ao seu endividamento. No quarto trimestre de 2025, a dívida líquida da empresa ficou em US$ 15,6 bilhões, US$ 1 bilhão abaixo do trimestre anterior. Bacci sinalizou que, à medida que a dívida líquida caminhe para um nível abaixo de US$ 15 bilhões, a propensão a distribuir dividendos extraordinários aumenta. O anúncio, no entanto, deve ficar para o segundo semestre, segundo o CFO.

Outro ponto positivo para a Vale é o foco na expansão da produção de cobre. Gustavo Pimenta, CEO da Vale, afirmou que a companhia "adoraria" acelerar os investimentos nesse metal, que é considerado essencial para a transição energética. A divisão de Metais Básicos (VBM) da Vale alcançou um Ebitda de US$ 1,4 bilhão no último trimestre, um resultado 72% acima do estimado pelo BTG Pactual.

O câmbio e a Vale: uma relação complexa

A Vale, como uma grande exportadora, tem uma relação intrínseca com o dólar. A receita da empresa é majoritariamente em dólares, enquanto parte dos custos é em reais. Portanto, a taxa de câmbio tem um impacto significativo nos resultados da companhia.

Um dólar mais alto tende a beneficiar a Vale, pois aumenta a receita em reais. No entanto, a valorização do dólar também pode impactar negativamente a economia brasileira, com reflexos na inflação e na taxa de juros. As decisões do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, também influenciam o câmbio, e consequentemente, a Vale. Se o Fed elevar as taxas de juros nos Estados Unidos, por exemplo, o dólar tende a se fortalecer globalmente.

É importante lembrar que a Vale é uma empresa global, sujeita a diversos fatores externos, como os preços das commodities, o câmbio e a política econômica internacional. O desempenho da empresa também está atrelado ao crescimento da economia chinesa, um dos principais compradores de minério de ferro. No fim das contas, investir na Vale é como apostar em um cavalo de corrida: você analisa o histórico, as condições da pista e o jóquei, mas o resultado final depende de uma série de fatores que estão fora do seu controle.