A partir desta sexta-feira (1º), um novo capítulo na relação comercial entre o Mercosul e a União Europeia começa a ser escrito. O acordo, que vinha sendo negociado há décadas e agora entra em sua fase de vigência inicial, acena com a promessa de um horizonte mais dourado para as exportações brasileiras, especialmente para o setor do agronegócio. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) estima que, já no primeiro ano, possamos ver um aumento de até US$ 1 bilhão nas nossas vendas externas.
A conta é relativamente simples e se traduz em ganhos concretos para o produtor. Cerca de 54% das exportações do Mercosul para a União Europeia terão a tarifa zerada. Isso significa que produtos como mel, uvas, couros e até mesmo componentes de aeronaves, como geradores elétricos e motores, se tornarão mais competitivos no mercado europeu. "Uma tarifa de 3% ou 7% pode definir se o negócio acontece ou não. A eliminação desses custos abre espaço imediato para o produto brasileiro ganhar participação", explicou o presidente da Apex, Laudemir Muller, a jornalistas. Para o segmento de aeronaves, por exemplo, a tarifa zero pode abrir um mercado de cerca de US$ 16 bilhões.
O mercado europeu, com suas dimensões imponentes – movimentando mais de US$ 3 trilhões em importações –, é um alvo cobiçado. Estima-se que o mercado europeu seja aproximadamente nove vezes maior que o do Mercosul. A abertura, agora, promete ser mais rápida, com potencial de agilizar o acesso a esse gigante consumidor. É como abrir as portas para um mercado muito maior e mais promissor.
No entanto, é fundamental entender que essa relação é uma via de mão dupla. Enquanto nossos produtos ganham facilidade para entrar na Europa, produtos europeus também terão mais espaço no nosso mercado. Cerca de 10% dos produtos europeus passarão a ter tarifa zero para acessar o bloco sul-americano. Isso levanta debates importantes sobre a competitividade da indústria nacional e de alguns setores do próprio agronegócio brasileiro diante de concorrentes europeus que já possuem alta tecnologia e subsídios.
A reforma tributária, por exemplo, tem sido apontada por muitos como um passo necessário para que o Brasil possa colher os frutos de acordos como este. A burocracia e a complexidade tributária interna muitas vezes ofuscam o potencial que nossos produtos já possuem. Imagine tentar participar de uma corrida longa e desafiadora usando sapatos pesados; é assim que muitas empresas brasileiras se sentem ao tentar competir internacionalmente.
É nesse cenário de oportunidades e desafios que o governo federal e os setores produtivos precisam atuar. A análise das projeções da ApexBrasil sugere um otimismo justificável, mas a concretização desses números dependerá de uma série de fatores. A infraestrutura logística, a capacidade de adaptação dos produtores às exigências sanitárias e fitossanitárias europeias, e a estratégia de promoção comercial serão cruciais.
Para o consumidor brasileiro, as implicações podem ser sentidas no médio e longo prazo. Se as exportações de produtos como carne, soja e outros bens primários se consolidarem e aumentarem, pode haver um efeito positivo na balança comercial do país, gerando divisas que, em tese, poderiam ser reinvestidas em áreas como infraestrutura e serviços públicos. Contudo, a entrada de produtos europeus mais baratos pode, em alguns casos, pressionar os preços de itens similares produzidos internamente, gerando um efeito misto no custo de vida.
O acordo UE-Mercosul não é um passe de mágica, mas sim um novo cenário estratégico. A capacidade do Brasil de se adaptar, inovar e aproveitar as brechas abertas será o grande termômetro do seu sucesso. A conversa agora se desloca dos gabinetes para os resultados concretos nas lavouras e nas linhas de produção, onde a competitividade real será evidenciada e o potencial de crescimento, de fato, será alcançado.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.