A próxima semana marca um rito fundamental para o desenrolar da política brasileira: o início das convenções partidárias. A partir desta segunda-feira (20), os filiados de partidos e federações se reúnem para um dos primeiros passos concretos rumo às eleições de 2026: a escolha oficial dos candidatos que disputarão a Presidência da República, governos estaduais, senados e cadeiras na Câmara dos Deputados e assembleias legislativas. É a partir desses encontros que as campanhas começam a ganhar contornos mais definidos, e as alianças, ou a falta delas, se tornam mais palpáveis.

O Jogo das Alianças e a Definição de Candidaturas

Para quem acompanha os corredores de Brasília há anos, o período de convenções é sempre um termômetro importante. É quando as intenções declaradas em discursos e especulações de bastidores começam a se materializar em candidaturas oficiais. O especialista em Direito Eleitoral Guilherme Barcelos explica que o deferimento do registro de candidatura depende desse rito. Na prática, os pré-candidatos se tornam de fato candidatos após a aprovação em seus respectivos partidos. As convenções, que se estendem até 5 de agosto, são o palco onde as estratégias são traçadas, as coligações discutidas e, muitas vezes, as primeiras divergências já dão sinais de onde podem surgir os atritos na campanha.

A disputa presidencial, em particular, já começa a mostrar algumas convenções agendadas. O PL, por exemplo, confirmou a convenção de Flávio Bolsonaro para o dia 25 de julho em São Paulo. É um movimento estratégico, já que o estado concentra o maior número de eleitores. A definição das candidaturas, neste momento, é crucial não apenas para a articulação interna dos partidos, mas também para sinalizar aos eleitores e aos demais atores políticos quem são os nomes que realmente se colocarão na disputa.

A Promessa de Reformas Estruturais e um Cenário Internacional em Destaque

Enquanto os partidos se organizam internamente, o debate sobre propostas e projetos para o país ganha força. Romeu Zema, pré-candidato do Novo à Presidência, já sinaliza uma agenda ambiciosa. Durante um encontro do partido em São Paulo neste sábado (18), ele prometeu a privatização da Petrobras (PETR4) e do Banco do Brasil, destinando os recursos para obras de infraestrutura. A fala de Zema ressoa com um discurso que busca atrair eleitores pela via da gestão e do crescimento econômico, propondo desbloquear o potencial de crescimento e prosperidade. A ideia de usar recursos de estatais para investir em estradas, ferrovias e portos é uma forma de conectar a política econômica com as necessidades práticas do dia a dia, como a melhoria do escoamento da produção e a redução de custos logísticos para as empresas.

Mas o cenário eleitoral de 2026 não se restringe às fronteiras nacionais. A influência de atores externos é um ponto de atenção crescente. O brasilianista Anthony W. Pereira, professor de ciência política na Universidade Tulane, levanta uma bandeira vermelha: a possibilidade de interferência de Donald Trump na eleição brasileira para favorecer determinados candidatos e gerar instabilidade. Pereira relaciona essa preocupação à análise de retrocessos democráticos, citando a possibilidade de anistia a envolvidos nos ataques de 8 de janeiro caso o presidente Lula saia derrotado. A articulação entre a política doméstica e as dinâmicas internacionais, como a influência de ex-presidentes de potências globais, é um fator que merece atenção redobrada e que pode moldar o desenrolar da disputa. Na minha leitura, a forma como o Brasil navegará essas influências externas será um dos grandes desafios da próxima eleição.

O Peso da História e os Desafios para o Futuro

A história recente da política brasileira mostra que a polarização e as disputas acirradas são uma constante. Desde 2016, nenhum presidente conseguiu manter uma alta taxa de aprovação por tempo prolongado, evidenciando a volatilidade do eleitorado e a dificuldade de construir consensos duradouros. O período de convenções é, portanto, um momento de rearticulação e de busca por novas narrativas que possam capturar a atenção e a confiança do eleitor. A promessa de privatizações de Zema, por exemplo, dialoga com um eleitorado que busca soluções pragmáticas para a economia, mas pode encontrar resistência em setores que defendem o papel do Estado em setores estratégicos.

A forma como os partidos lidarão com pautas sensíveis, como a já mencionada anistia a envolvidos em atos antidemocráticos, também definirá o tom da disputa. O temor de um "novo retrocesso", como aponta Pereira, não é infundado e pode pesar na decisão de muitos eleitores. A campanha de 2026 promete ser complexa, com a necessidade de navegar entre propostas econômicas concretas, a influência de cenários internacionais e os fantasmas de crises passadas. Os próximos meses, repletos de convenções, serão cruciais para entender a direção que o país tomará.