A segunda-feira chegou com uma notícia que pode deixar muita gente com a pulga atrás da orelha: as contas do governo federal fecharam fevereiro com um déficit primário de R$ 30 bilhões. Para entender o tamanho do buraco, o governo gastou R$ 30 bilhões a mais do que arrecadou em impostos e outras receitas. E isso sem contar os juros da dívida pública, que entram em outra conta.

O que significa déficit primário?

Déficit primário significa que o governo gastou mais do que arrecadou com impostos e outras fontes de receita, sem considerar os gastos com juros da dívida pública. É um termômetro da saúde financeira do país, mostrando se o governo está conseguindo equilibrar suas contas no dia a dia.

Ainda que o número seja salgado, há um alívio: o resultado é um pouco melhor que o de fevereiro do ano passado, quando o déficit foi ainda maior, na casa dos R$ 32,8 bilhões (já corrigidos pela inflação). No acumulado dos dois primeiros meses do ano, as contas até que estão no azul, com um superávit primário de R$ 56,85 bilhões – também um pouco acima do registrado no mesmo período de 2025.

O Tesouro Nacional, responsável por divulgar esses dados, explicou que houve um aumento tanto nas receitas quanto nas despesas. A receita líquida (o que entra de dinheiro nos cofres públicos) subiu 5,6%, impulsionada pela arrecadação de impostos. Mas as despesas (o que sai) também cresceram, 3,1% a mais.

Para onde foi o dinheiro?

Segundo o governo, a grana extra nas despesas foi para:

  • Educação: R$ 3,4 bilhões a mais, principalmente por conta do Programa Pé de Meia, que dá uma força para estudantes de baixa renda não abandonarem a escola.
  • Saúde: R$ 1,4 bilhão a mais, para garantir o funcionamento dos serviços de saúde.
  • Pessoal e Encargos Sociais: R$ 2,2 bilhões a mais, reflexo dos reajustes salariais concedidos aos servidores públicos no ano passado.
  • Benefícios Previdenciários: R$ 1,7 bilhão a mais, por conta do aumento no número de aposentados e pensionistas e do reajuste do salário mínimo.

Em outras palavras, o governo está gastando mais com áreas importantes como educação e saúde, mas também com o funcionalismo público e a Previdência Social. O desafio é equilibrar esses gastos com a arrecadação para evitar que o déficit continue crescendo.

Juros do cartão de crédito nas alturas

Enquanto o governo tenta ajustar as contas, quem está com a corda no pescoço é o consumidor que usa o cartão de crédito rotativo. Os juros médios dessa modalidade de crédito subiram para nada menos que 436% ao ano em fevereiro, de acordo com dados do Banco Central. Para ter uma ideia, essa taxa é 30 vezes maior que a taxa básica de juros da economia, a Selic.

O rotativo do cartão de crédito é aquela linha de crédito emergencial que a gente usa quando não consegue pagar o valor total da fatura. O problema é que os juros SÃO ALTÍSSIMOS, o que faz com que a dívida, caso não seja paga, vire uma bola de neve. E não é pouca gente que está nessa situação: cerca de 40 milhões de brasileiros estavam com dívida no rotativo em janeiro, segundo o Banco Central. A inadimplência nessa linha de crédito já ultrapassa os 60%.

Para tentar conter essa sangria, o Congresso e o governo aprovaram, no início do ano, uma regra que limita o valor da dívida do rotativo ao dobro do valor original. Ou seja, se você deve R$ 100, a dívida total, com juros e encargos, não pode passar de R$ 200. Mas essa regra só vale para as dívidas contraídas a partir de janeiro.

Para quem já está enrolado, a dica é tentar renegociar a dívida com o banco ou buscar outras linhas de crédito com juros menores, como o crédito consignado (com desconto em folha de pagamento). E, claro, evitar ao máximo usar o rotativo do cartão, pagando sempre o valor total da fatura.

O que esperar da economia?

Diante desse cenário de contas públicas no vermelho e juros do cartão nas alturas, a pergunta que não quer calar é: o que esperar da economia brasileira nos próximos meses? A resposta não é simples, mas alguns fatores podem ajudar a entender o panorama.

O Boletim Focus, divulgado também nesta segunda-feira pelo Banco Central, elevou a projeção para a inflação em 2026 para 4,31%. Apesar da alta, a expectativa ainda está dentro da meta de inflação estabelecida pelo governo (3%, com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo). Já a estimativa para a taxa Selic se manteve em 12,50%.

Ainda que a inflação esteja sob controle (por enquanto), o rombo nas contas públicas pode gerar pressões inflacionárias no futuro, caso o governo não consiga equilibrar as finanças. Uma das formas de fazer isso é controlando os gastos públicos, o que nem sempre é fácil, já que muitas despesas são obrigatórias (como os salários dos servidores e os benefícios da Previdência).

Outra forma é aumentando a arrecadação de impostos. O governo tem estudado algumas medidas nesse sentido, mas qualquer aumento de impostos pode gerar resistência por parte da sociedade e do setor produtivo, que já se sentem sobrecarregados. É como um cobertor curto: se você cobre a cabeça, descobre os pés, e vice-versa.

E o STF com isso?

Embora não esteja diretamente ligado aos números divulgados hoje, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um papel importante na economia, especialmente em decisões que afetam a arrecadação de impostos e a segurança jurídica para os investidores. Decisões sobre temas como a cobrança de ICMS sobre a base de cálculo do PIS/Cofins e a validade de incentivos fiscais podem ter um impacto significativo nas contas públicas.

Eleição no Rio afeta Brasília?

A eleição suplementar para o governo do Rio de Janeiro, marcada para o ano que vem em decorrência da cassação do governador, pode ter reflexos indiretos em Brasília. Uma eventual mudança de governo no Rio pode alterar o equilíbrio de forças no Congresso Nacional, influenciando a tramitação de projetos importantes para a economia, como a reforma tributária e a regulamentação do mercado de carbono.

Mandato-tampão e Judiciário

O mandato-tampão do novo governador do Rio de Janeiro, que durará apenas dois anos, pode gerar uma maior instabilidade política e econômica no estado, com reflexos em todo o país. Além disso, a atuação do Judiciário, tanto no processo de cassação do governador quanto em outras questões relevantes para a economia, tem sido alvo de debates e críticas, o que pode gerar incertezas para os investidores.

Em resumo, o cenário econômico brasileiro é complexo e desafiador. O governo precisa equilibrar as contas públicas, controlar a inflação e garantir o crescimento da economia. O cidadão, por sua vez, precisa estar atento aos seus gastos, evitar o endividamento excessivo e buscar alternativas para proteger o seu bolso. E todos nós precisamos acompanhar de perto as decisões políticas e econômicas que afetam o nosso dia a dia.