A conta não está fechando. As empresas estatais federais, excluindo Petrobras (PETR4), Eletrobras e bancos públicos, acumularam um rombo de R$ 4,1 bilhões nos dois primeiros meses de 2026. O número, divulgado pelo Banco Central, é o pior da série histórica, que começou em 2002. Para efeito de comparação, o déficit de janeiro e fevereiro quase se iguala ao prejuízo de todo o ano passado, que somou R$ 5,1 bilhões.

Aperto de cintos em Brasília

Diante desse cenário, o governo federal anunciou um bloqueio de R$ 1,6 bilhão no Orçamento de 2026. É como se, em casa, a gente precisasse cortar gastos supérfluos para conseguir pagar as contas básicas. Desse total, R$ 1,26 bilhão virão de despesas não obrigatórias do Poder Executivo, enquanto R$ 334 milhões serão retirados de emendas parlamentares.

Segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento, o corte não vai atingir os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas, inevitavelmente, a medida terá impacto em outras áreas. Na prática, o bloqueio orçamentário pode significar menos recursos para a manutenção de serviços públicos, como saúde e educação, e até mesmo atrasos em projetos de infraestrutura. Como o governo mesmo admitiu, a execução orçamentária seguirá sob monitoramento, e novos ajustes não estão descartados.

Correios na berlinda

A situação dos Correios chama atenção. A empresa, que já enfrentava dificuldades financeiras, alega que o programa Remessa Conforme (que facilita a entrada de produtos importados de baixo valor) expôs problemas de “reposicionamento negocial”. Em outras palavras, a concorrência com empresas estrangeiras ficou mais acirrada, e a estatal não conseguiu se adaptar.

A empresa é importante para entregar encomendas em todo o país, inclusive em locais remotos onde empresas privadas não chegam. Se a situação financeira dos Correios piorar, o cidadão pode sentir no bolso: o preço das entregas pode subir, e o tempo de espera aumentar.

O fator eleitoral

O momento não poderia ser pior para o governo. Em ano de eleição, qualquer medida que cause impacto negativo na vida do cidadão pode gerar rejeição política. A oposição, claro, já está de olho. Parlamentares ligados a Flávio Bolsonaro, por exemplo, já criticaram o que chamam de “má gestão” das estatais e cobram explicações do governo Lula.

Emendas parlamentares: moeda de troca?

O corte nas emendas parlamentares também pode gerar turbulências no Congresso. Emenda parlamentar funciona como uma moeda de troca: o governo libera recursos para projetos indicados por deputados e senadores, e, em troca, espera contar com o apoio deles nas votações. Ao diminuir essa “moeda”, o governo corre o risco de perder votos importantes.

Analistas políticos já avaliam que o governo terá que ter muita habilidade para administrar a crise nas estatais e, ao mesmo tempo, manter a base de apoio no Congresso unida. O cenário, como se vê, é desafiador.

Impacto no seu bolso

Mas, afinal, como tudo isso afeta o cidadão comum? A resposta é: de várias formas. Se o governo precisa cortar gastos, a tendência é que sobre menos dinheiro para investir em áreas essenciais, como saúde, educação e segurança. Além disso, o aumento do endividamento das estatais pode gerar pressão para o aumento de tarifas e impostos.

É importante lembrar que, no fim das contas, quem paga a conta é o contribuinte. Por isso, é fundamental acompanhar de perto as decisões do governo e cobrar transparência na gestão dos recursos públicos. Afinal, o dinheiro que está sendo gasto (ou mal gasto) é o seu.