O governo brasileiro está em compasso de espera e monitoramento intenso após a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida, que passa a valer oficialmente nesta sexta-feira (5), acendeu um alerta em Brasília sobre as possíveis repercussões, que vão desde um efeito meramente simbólico até cenários de sanções financeiras e de segurança.
Nos bastidores, diplomatas e integrantes da área de segurança do Itamaraty e de órgãos de inteligência acompanham de perto os desdobramentos da administração americana. São avaliados três cenários principais. O mais brando prevê que a decisão fique restrita ao campo político e simbólico, sem maiores impactos práticos. No entanto, a preocupação reside nos outros dois cenários, que evocam experiências passadas em que ações americanas contra o narcotráfico escalaram para apreensão de ativos e bloqueios financeiros.
O temor é que os Estados Unidos adotem medidas semelhantes às vistas em relação à Venezuela, onde o enfrentamento ao crime organizado resultou em ações mais duras, incluindo potenciais bloqueios de bens e ativos. Para o Brasil, isso levanta a bandeira vermelha da soberania, com a possibilidade de interferências que vão além do combate ao crime e atingem a esfera econômica e financeira.
O que significa, na prática, essa classificação de terrorismo? Segundo a legislação americana, o apoio a organizações designadas como terroristas pode se tornar crime. Isso significa que indivíduos e empresas que, de alguma forma, prestarem auxílio a essas facções brasileiras podem ser alvo de investigações e sanções sob a lei dos Estados Unidos. A medida, portanto, amplia o escopo de atuação dos órgãos americanos de contraterrorismo, tratando o PCC e o CV sob uma ótica diferente do narcotráfico e crime organizado comuns.
Internamente, a decisão americana também encontra ecos no debate político. Uma nova pesquisa eleitoral da Quaest, que será divulgada na próxima semana, já inclui perguntas sobre as recentes ações dos EUA em relação ao Brasil. Entre os temas a serem abordados estão a classificação do PCC e do CV como terroristas, além da imposição de tarifas pelo governo Trump a produtos brasileiros. A pesquisa, encomendada pela Genial Investimentos, também investigará a percepção do eleitor sobre outros assuntos de relevância política, como as revelações sobre a relação entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, e os repasses de recursos públicos para a produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já se manifestou publicamente sobre as tarifas impostas pelos EUA, afirmando que os argumentos apresentados não são legítimos. Segundo o ministro, o Brasil forneceu todas as informações necessárias para contestar as investigações americanas, e a expectativa é de que esses argumentos sejam considerados para evitar a aplicação das tarifas. A manutenção de conversas abertas com os Estados Unidos é vista como fundamental para resolver as pendências.
A designação de organizações criminosas como terroristas por um país estrangeiro tem o potencial de impactar diretamente a cooperação internacional em segurança e inteligência. A troca de informações entre Brasil e EUA sobre combate ao crime organizado pode ser afetada, e a própria percepção do Brasil no cenário global pode ser alterada. Para o cidadão comum, as consequências podem se manifestar em um eventual aumento dos custos de produtos importados, caso as tarifas se concretizem, ou em um endurecimento das medidas de segurança em aeroportos e fronteiras, reflexo da nova classificação de risco.
A gestão atual busca reverter a decisão e manter o diálogo bilateral, mas o cenário é delicado. A relação entre Brasil e EUA passa por uma fase de ajustes, e essa questão das facções criminosas adiciona mais um ingrediente à complexa teia das relações internacionais.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.