A máxima de que política externa não rende votos no Brasil parece cada vez mais desafiada em tempos de polarização acirrada. O palco eleitoral de 2026, ainda em sua pré-história, já exibe como o cenário internacional e as relações diplomáticas se transformaram em autênticos trunfos na disputa pela Presidência da República. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca consolidar sua imagem de estadista global; do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acena para a base conservadora, explorando justamente essas mesmas questões para reforçar seu discurso.

A semana que passou acentuou essa tendência. A movimentação em torno da guerra em Gaza e as posições divergentes sobre a Venezuela, historicamente pontos de atrito entre o espectro político brasileiro, ganham contornos eleitorais. Enquanto Lula tenta navegar entre o apoio à causa palestina e a necessidade de manter relações pragmáticas, Flávio Bolsonaro explora essa mesma causa para criticar o governo, buscando angariar simpatias de setores que se sentem representados por uma linha mais dura ou pelo alinhamento com certas potências.

A 'Gangorra' Eleitoral e os Holofotes Internacionais

A dinâmica da pré-campanha tem sido volátil, com altos e baixos diários influenciados tanto por fatos domésticos quanto por eventos globais. Flávio Bolsonaro, um dos principais pré-candidatos do PL à Presidência, viu sua semana ser marcada pela revelação de conversas comprometedoras envolvendo a liberação de recursos para uma cinebiografia sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e um encontro com um banqueiro sob investigação. Em meio a esse desgaste interno, o senador buscou reverter a narrativa em solo estrangeiro.

A viagem aos Estados Unidos e a reunião com o ex-presidente Donald Trump, que ocorreu na Casa Branca, virou um ponto de virada para a comunicação de Flávio. Publicou fotos e declarou à imprensa que, entre outros temas, solicitou a Trump a inclusão de facções criminosas brasileiras, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), na lista de organizações terroristas dos EUA. A estratégia, que busca projetar uma imagem de combatente do crime e de interlocutor com o poder americano, visa fortalecer sua candidatura perante o eleitorado conservador e de direita.

No entanto, essa articulação não passou despercebida. A iniciativa de Flávio Bolsonaro de solicitar a inclusão de facções brasileiras em listas de terrorismo dos EUA gerou um pedido de investigação por parte de deputados do PSOL e da Rede. O grupo protocolou na Procuradoria-Geral da República (PGR) um pedido para que o senador seja investigado por um possível atentado à soberania nacional. Segundo os parlamentares, essa ação cria a possibilidade jurídica para uma intervenção militar no Brasil, ampliando o debate para uma esfera de segurança nacional e direitos constitucionais.

A repercussão da classificação de facções como terroristas, conforme noticiado pelo G1 Política, também tem o potencial de desgastar a imagem do governo Lula. Analistas apontam que, ao se posicionar sobre temas internacionais que dividem opiniões, ambos os pré-candidatos correm o risco de alienar parcelas do eleitorado. A forma como o governo brasileiro responde a essas pressões internacionais e como o Judiciário lida com as denúncias contra Flávio Bolsonaro podem ser fatores determinantes nas próximas pesquisas eleitorais.

O 'Jardim' da Diplomacia como Campo de Batalha

Tradicionalmente, o Itamaraty era visto como um departamento que lidava com assuntos distantes e de pouco impacto nas urnas, como brincava o aforismo atribuído a Ulysses Guimarães. Contudo, a eleição de 2026 parece indicar uma mudança nesse cenário, demonstrando que a política externa pode ter maior impacto nas urnas. O confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro em torno de temas como a guerra em Gaza e a situação da Venezuela demonstra que a política externa se tornou um campo de batalha eleitoral.

Para o presidente Lula, defender sua política externa é defender seu legado e sua visão de mundo. Sua postura em relação à Venezuela, por exemplo, tem sido criticada por analistas internacionais e setores da oposição, que a consideram brando demais diante do regime de Nicolás Maduro. Essa percepção, alimentada por debates sobre direitos humanos e democracia, pode ser explorada por seus adversários. Por outro lado, a agenda de Lula em fóruns internacionais e seu discurso em defesa da paz e da diplomacia em Gaza podem ressoar positivamente em segmentos da sociedade civil e em países aliados, fortalecendo sua imagem de líder progressista.

Já para Flávio Bolsonaro, a relação com Donald Trump e a postura mais assertiva em relação a temas como a Venezuela e as facções criminosas funcionam como uma proteção retórica ('escudo') e um sinal de aprovação ('aceno') para a base mais conservadora e anti-esquerda. A reunião com Trump, em particular, foi apresentada como uma demonstração de força e de acesso privilegiado aos centros de poder nos EUA. A inclusão de facções brasileiras na lista de terrorismo americana, se concretizada, seria um feito político a ser explorado na campanha.

No entanto, essa estratégia também carrega riscos. A menção de facções brasileiras em listas internacionais pode gerar receio entre investidores estrangeiros e impactar a imagem do país no exterior, afetando, por exemplo, acordos comerciais e a atração de capital. Além disso, a judicialização do caso, com o pedido de investigação pela PGR, pode criar um ambiente de instabilidade jurídica e política que transborda para o cenário eleitoral.

Consequências Práticas para o Cidadão

Em um primeiro olhar, as disputas diplomáticas e os embates retóricos entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre Gaza, Venezuela ou Trump podem parecer distantes da realidade cotidiana do cidadão comum. No entanto, as consequências são tangíveis e afetam diretamente a vida de todos os brasileiros. Uma política externa mais isolada ou alinhada a interesses específicos pode significar menos oportunidades de negócios, menos acesso a tecnologias e, em última instância, menos empregos e investimentos no país. Por outro lado, um posicionamento mais contundente em defesa de pautas globais pode fortalecer a imagem do Brasil e abrir portas para cooperação em áreas cruciais, como saúde e meio ambiente.

A forma como o Brasil se relaciona com outros países impacta diretamente a economia. Um ambiente internacional mais estável e com boas relações diplomáticas tende a atrair mais investimentos, fortalecer o real e facilitar exportações, o que, em cascata, pode gerar mais empregos e melhorar o poder de compra da população. Se a disputa eleitoral levar a um afastamento de blocos econômicos importantes ou a um discurso hostil a potências com as quais o Brasil tem relações comerciais significativas, o impacto nos preços de produtos importados e na competitividade das nossas exportações pode ser sentido no bolso.

Além disso, a segurança nacional é um tema que não pode ser descolado da política externa. A sugestão de incluir facções brasileiras em listas de terrorismo internacionais, embora tenha objetivos eleitorais claros, abre um precedente para discussões sobre soberania e autonomia. A forma como essas questões são tratadas no Congresso e na esfera diplomática pode reverberar em políticas de segurança pública, no combate ao crime organizado e, indiretamente, na sensação de segurança dos cidadãos em suas comunidades.

O cenário eleitoral de 2026, portanto, se desenha como um campo de provas onde a diplomacia e as relações internacionais deixam de ser apenas matéria de especialistas e se tornam ferramentas de convencimento popular. Os eleitores terão a tarefa de discernir quais propostas e visões de mundo são mais capazes de garantir um futuro de estabilidade, prosperidade e protagonismo para o Brasil no cenário global.