A corrida eleitoral de 2026 já começou, e a Inteligência Artificial (IA) surge como um ator cada vez mais presente e influente. Seja na forma como o debate político se desenrola ou na maneira como os eleitores recebem informações sobre os candidatos, as ferramentas de IA prometem remodelar o cenário. No entanto, essa nova fronteira digital traz consigo desafios significativos, que foram expostos com a recente atualização da regulamentação do Marco Civil da Internet e com estudos que apontam para a parcialidade de chatbots em responder a questionamentos eleitorais.

A Tênue Linha Entre Regulação e Controle do Discurso

O decreto nº 12.975, que atualiza a regulamentação do Marco Civil da Internet, tem gerado intensos debates. A intenção declarada é impor deveres mais claros às grandes plataformas digitais, que já atuam na moderação de conteúdos e podem influenciar o debate público com pouca transparência. A ideia é que essas empresas sejam mais responsáveis pelo que circula em seus ambientes, especialmente em um contexto de campanhas eleitorais.

Contudo, essa regulamentação navega em um terreno complexo. Existe o risco real de que, na tentativa de impor regras, o Estado acabe abrindo espaço para o controle do discurso político. A preocupação, como aponta Eduardo Felipe Matias, doutor em direito e autor de "A humanidade e o poder digital", é que "uma regulação necessária não se converta em instrumento de controle". O desafio é estabelecer limites claros para que a fiscalização não se transforme em censura velada, algo que, em um país polarizado como o Brasil, pode rapidamente escalar.

Essa tensão entre dar mais responsabilidade às plataformas e garantir a liberdade de expressão é central. As big techs, com seu alcance massivo, têm um poder inegável de moldar narrativas. Impor responsabilidades a elas pode ser um passo importante para um ambiente digital mais equitativo. No entanto, é fundamental que os mecanismos de fiscalização sejam transparentes e independentes, evitando que se tornem ferramentas de pressão sobre o debate público, especialmente em anos eleitorais.

Chatbots e a Influência nas Eleições de 2026

Um estudo recente do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) trouxe um dado alarmante: 85% dos principais chatbots de Inteligência Artificial ranqueiam ou priorizam pré-candidatos presidenciais em suas respostas a perguntas eleitorais. A pesquisa, intitulada "Boca de IA - Como as IAs recomendam voto nas eleições de 2026?", testou ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude, e descobriu que a maioria delas organiza os candidatos em listas hierarquizadas ou apresenta nomes em uma ordem específica, sem que os critérios para tal ordenação sejam claros.

Essa prática é especialmente preocupante porque pode influenciar diretamente a decisão do eleitor. Em um cenário onde a maioria das pessoas busca informações rápidas e diretas, a forma como um chatbot apresenta os candidatos pode criar uma percepção de favoritismo ou relevância sem fundamento técnico ou democrático. Segundo o estudo, essa tendenciosidade é vedada por resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A falta de transparência sobre os algoritmos que determinam essa ordenação é outro ponto crítico. Como os cidadãos poderão confiar nas informações recebidas se não sabem quais vieses estão sendo aplicados? A Inteligência Artificial, quando mal utilizada ou desregulada em sua apresentação, pode se tornar um elemento que mina a democracia, moldando opiniões de forma sutil e sem o escrutínio adequado. A promessa da IA é de democratizar o acesso à informação, mas, neste caso, ela parece caminhar para o extremo oposto, concentrando poder decisório na mão de algoritmos.

O Impacto Prático para o Cidadão

Mas o que tudo isso significa para o cidadão comum? A regulamentação do Marco Civil da Internet, se bem aplicada, pode significar um ambiente online com menos desinformação e discursos de ódio, tornando a busca por informações mais confiável. Para quem não tem tempo de pesquisar a fundo sobre todos os candidatos, um algoritmo tendencioso em um chatbot pode ser o único filtro, levando a decisões de voto baseadas em rankings artificiais. Isso impacta diretamente a qualidade da representação política e a saúde da nossa democracia.

A questão do discurso digital e sua influência nas eleições se torna ainda mais complexa com a IA. Plataformas mais responsáveis podem significar menos fake news sendo impulsionadas e um debate público mais qualificado. Por outro lado, a vigilância excessiva ou a má aplicação de leis podem sufocar a liberdade de expressão, elemento vital para qualquer democracia. O eleitor precisa ter acesso a um espectro amplo de informações para tomar sua decisão, sem que algoritmos pré-determinem o que ele deve ver ou em quem deve pensar.

É como se as redes sociais e os mecanismos de busca fossem o grande mercado onde as ideias são expostas. Se a feira for desorganizada, com barracas favorecendo alguns produtos sem critérios claros, o consumidor (eleitor) acaba comprando o que lhe é apresentado de forma mais vistosa, e não necessariamente o de melhor qualidade. A Inteligência Artificial, sem as devidas salvaguardas, pode exacerbar essa desorganização, criando um mercado de ideias enviesado. A urgência agora é garantir que a tecnologia sirva ao interesse público, e não se torne um mero instrumento de manipulação ou controle.