A inteligência artificial (IA) deixou de ser ficção científica para se tornar realidade no mercado de trabalho brasileiro. Cada vez mais empresas estão usando a tecnologia para automatizar tarefas, otimizar processos e, claro, aumentar a produtividade. Mas essa revolução tecnológica tem um lado sombrio: o risco de demissões em massa e o aumento do endividamento para quem não conseguir se adaptar.

Onde a IA já chegou?

Uma pesquisa recente do IBGE revelou que quase 42% das indústrias brasileiras com mais de 100 funcionários já utilizavam alguma forma de IA em 2024. E o foco principal está nas áreas administrativas (88%) e comerciais (75%). Isso significa que funções como atendimento ao cliente, análise de dados, gestão de estoque e até mesmo algumas atividades de marketing já estão sendo feitas, pelo menos em parte, por máquinas.

É importante notar que a simples adoção da IA não significa que todos os empregos serão extintos. A questão central é: quem está preparado para essa nova realidade? Um estudo do Centre for the Governance of AI aponta que a vulnerabilidade não está apenas na função em si, mas na capacidade do trabalhador de se adaptar e adquirir novas habilidades.

Quem está mais em risco?

Profissionais com baixa escolaridade, pouca experiência em tecnologia e funções repetitivas são os mais vulneráveis. Aquele operador de telemarketing que faz as mesmas perguntas o dia inteiro, o digitador que só copia dados de um sistema para outro, o auxiliar administrativo que só preenche planilhas… Esses são os empregos que a IA pode substituir com mais facilidade.

O problema é que essas são também as funções que empregam a maior parte da população brasileira, especialmente jovens e pessoas de baixa renda. E o desemprego, como sabemos, leva ao endividamento e pode levar a tentativas desesperadas de ganhar dinheiro fácil, como as apostas online (as famosas "bets"), aumentando o risco de exclusão social.

O que o governo pode fazer?

A boa notícia é que o governo tem algumas ferramentas para mitigar esses impactos negativos. A principal delas é a qualificação profissional. É preciso investir em cursos e programas que ensinem os trabalhadores a lidar com as novas tecnologias, a desenvolver habilidades de análise de dados, programação e outras áreas que estão em alta no mercado.

Outra medida importante é a criação de linhas de crédito facilitadas para quem quer abrir o próprio negócio. O empreendedorismo pode ser uma alternativa para quem perdeu o emprego, mas é preciso dar o suporte financeiro necessário para que essas pessoas consigam começar.

Além disso, o governo pode usar o FGTS como uma ferramenta para incentivar a requalificação profissional. Que tal liberar parte do saldo para que os trabalhadores possam pagar cursos e treinamentos? Isso seria um investimento no futuro, em vez de simplesmente esperar que as pessoas gastem o dinheiro em dívidas e contas atrasadas.

A aposta alta demais nas bets

A facilidade de acesso a plataformas de apostas online, as chamadas "bets", também preocupa. A promessa de dinheiro fácil e rápido atrai principalmente os mais vulneráveis, que acabam se endividando ainda mais em busca de um golpe de sorte. É preciso regular esse mercado e criar mecanismos de proteção para os consumidores, como limites de apostas e alertas sobre os riscos do vício.

Como um jornalista que acompanha Brasília há anos, vejo que a inteligência artificial é como um trem em alta velocidade: se não tivermos políticas públicas adequadas para direcioná-lo, ela pode atropelar muita gente.

Afinal, a tecnologia deveria servir para melhorar a vida das pessoas, e não para torná-la ainda mais difícil.