Em um tom que remete às campanhas eleitorais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou nesta quarta-feira (27.05.2026) que a privatização da Eletrobras, ocorrida em junho de 2022 sob a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi o "maior roubo da história desse país". A fala aconteceu durante um evento em Manaus (AM) para anunciar investimentos da Petrobras (PETR4) na região, um cenário que sinaliza um pano de fundo eleitoral para as críticas.

A Eletrobras, maior empresa do setor elétrico da América Latina, responsável por uma parcela significativa da geração de energia no Brasil, teve sua privatização marcada pela redução da participação acionária do governo de 65% para 42%. A operação rendeu cerca de R$ 30 bilhões aos cofres públicos na época. Lula, no entanto, foca em uma questão específica para embasar sua crítica: os salários da alta diretoria da companhia.

“Cadê a moralização?”, questionou o presidente, citando que o antigo salário do presidente da Eletrobras, quando a empresa ainda era estatal, girava em torno de R$ 60.000 mensais. Atualmente, segundo Lula, os vencimentos chegam a R$ 500.000. Essa comparação busca ilustrar o que o petista considera um desvio de finalidade e um prejuízo para o patrimônio público, argumentando que a desestatização resultou em benefícios concentrados e não em ganhos generalizados para a sociedade ou para a eficiência da gestão.

Crítica à Gestão e Salários da Diretoria

A estratégia do governo em reforçar a crítica a privatizações passadas pode ser interpretada como uma tentativa de mobilizar sua base eleitoral e de se posicionar como defensor do patrimônio público. O debate sobre privatizações é um dos eixos centrais das discussões econômicas no país, especialmente em ano pré-eleitoral, e a crítica direcionada à Eletrobras pode servir como um cartão de visitas para o futuro, antecipando possíveis discussões sobre o papel do Estado em setores estratégicos.

Impacto para o Cidadão Comum

Para o cidadão comum, as declarações de Lula sobre a Eletrobras levantam questões importantes sobre a gestão das empresas estatais e o impacto das privatizações na vida cotidiana. A qualidade dos serviços de energia elétrica, a previsibilidade de tarifas e a responsabilidade sobre grandes obras de infraestrutura energética são aspectos que, embora nem sempre diretamente ligados ao salário de executivos, são temas que preocupam a população. A discussão sobre quem deve controlar e lucrar com recursos essenciais como a energia é um debate de longa data no Brasil.

Discurso Eleitoral e Desenvolvimento Regional

A retórica de Lula em Manaus também serve para ressaltar os investimentos que o governo federal tem direcionado para a região amazônica através da Petrobras. Ao apresentar a estatal como um motor de desenvolvimento local e nacional, em contraste com a privatização vista como um "roubo", o governo busca fortalecer a imagem de sua política econômica e de sua capacidade de gerar empregos e renda em áreas consideradas prioritárias.

Simplificando um Debate Complexo

O questionamento sobre os salários da diretoria da Eletrobras pode ser uma forma de simplificar um debate complexo, tornando-o mais acessível para o público geral. Ao focar em uma cifra que salta aos olhos, Lula tenta criar uma narrativa clara: a privatização, em sua visão, beneficiou poucos em detrimento de muitos. Essa abordagem tem o potencial de ressoar com eleitores que desconfiam de grandes transações financeiras envolvendo o patrimônio do Estado e que percebem a distância entre os ganhos de executivos e a realidade do trabalhador.

Narrativas Econômicas e o Futuro das Privatizações

As consequências práticas dessa disputa retórica sobre a Eletrobras se manifestam em diferentes frentes. Por um lado, alimentam o debate público sobre a melhor forma de gerir empresas estratégicas para o desenvolvimento do país. Por outro, podem influenciar futuras decisões sobre políticas de desestatização, caso o governo atual ganhe força política. O foco na "eficiência" e nos "altos salários" como métricas de fracasso de uma privatização é um argumento político que busca capitalizar em cima da percepção popular de que muitas vezes as grandes transações empresariais beneficiam uma elite em detrimento do bem comum.

A privatização da Eletrobras, como a de outras estatais, envolveu uma série de negociações e debates técnicos. No entanto, a leitura de Lula, voltada para o impacto social e a percepção de "roubo", busca deslegitimar a operação em si e, ao mesmo tempo, reforçar a narrativa de um governo que protege os interesses da nação. Esse discurso tende a se intensificar à medida que o cenário eleitoral de 2026 se aproxima, com a disputa por narrativas econômicas se tornando cada vez mais acirrada.