De volta ao Brasil nesta quarta-feira, o presidente Lula encerrou uma viagem de cinco dias à Europa que revelou uma agenda diplomática de múltiplas camadas. Enquanto o presidente buscava fortalecer laços econômicos e comerciais com o velho continente, como em sua rápida passagem por Portugal, ele também acendeu um novo atrito com os Estados Unidos – um movimento que, no tabuleiro da política interna, tem um alvo claro para as eleições de 2026.
As relações internacionais, muitas vezes vistas como algo distante, têm um impacto prático significativo. Acordos comerciais podem baratear produtos ou abrir mercados para empresas brasileiras, gerando empregos. Já tensões diplomáticas, como a atual com os EUA, podem criar obstáculos para cidadãos ou para a própria governabilidade. É um jogo que se desenrola no exterior, mas cujas consequências são sentidas aqui, no dia a dia.
Europa: De Portugal ao Mercosul-UE
A etapa final da viagem europeia de Lula foi em Portugal, onde o presidente se encontrou com o primeiro-ministro Luís Montenegro e o presidente português, Antonio José Seguro. A pauta incluiu cooperação econômica e temas sensíveis como xenofobia e imigração. Portugal, que abriga a segunda maior comunidade brasileira no exterior – cerca de 500 mil regularizados –, tem visto suas leis migratórias se endurecerem desde 2025, o que gera preocupação entre os brasileiros que buscam residência e trabalho por lá.
Para o cidadão brasileiro, o que sai de uma reunião bilateral como essa? Principalmente a promessa de fortalecimento da parceria, com foco em oportunidades de investimento e, quem sabe, uma flexibilização futura nas políticas migratórias que facilite a vida de quem busca melhores condições. Um ponto crucial da agenda europeia foi a defesa do avanço do Acordo Mercosul-União Europeia. A concretização desse pacto, que se arrasta há anos, é como uma reforma de casa: enquanto dura, tudo fica bagunçado com negociações e ajustes, mas a promessa é que no final os ganhos sejam significativos, com maior fluxo de comércio, redução de tarifas e mais opções de produtos para o consumidor, além de potencial para mais investimentos e empregos no Brasil.
Atrito Brasil-EUA: O Caso do Delegado da PF e Ramagem
Contraste marcante com a postura amigável em Portugal, a relação com os Estados Unidos vive um momento de tensão. O epicentro da crise é a situação do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho. Atuando como oficial de ligação do Brasil junto ao serviço de imigração americano (ICE) desde 2023, Carvalho foi alvo de um pedido dos EUA para que deixasse o país.
A razão para isso é o envolvimento do delegado na prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal, Ramagem teve seu mandato cassado e fugiu para os EUA em 2025, sendo considerado foragido. Ele foi detido na semana passada com visto vencido e sem passaporte válido, num episódio que a PF brasileira descreveu como resultado de um acordo de cooperação para sua deportação. Mas para o governo de Donald Trump, o delegado brasileiro estaria “manipulando o sistema de imigração” e estendendo “perseguições políticas” em território americano.
A resposta brasileira não tardou. O presidente Lula falou em adotar a reciprocidade, uma medida diplomática que, de forma simples, significa responder com a mesma moeda. É como um jogo de espelhos: se um país toma uma ação contra um diplomata ou funcionário de outro, o país afetado pode tomar uma ação similar em retaliação. No dia seguinte ao pedido americano, a encarregada de Negócios interina da Embaixada dos EUA em Brasília, Kimberly Kelly, foi convocada pelo Ministério das Relações Exteriores para dar explicações. Esse tipo de atrito diplomático, embora não afete diretamente o dia a dia do cidadão comum de imediato, pode escalar para questões como vistos, facilidade de comércio ou cooperação em áreas como segurança e ciência, que impactam o intercâmbio entre os países.
Lula x Trump: O Palco Global e a Lente de 2026
As declarações de Lula criticando o presidente americano Donald Trump não são isoladas e parecem fazer parte de uma estratégia política mais ampla, com um olho nas eleições de 2026. Durante a viagem à Europa, Lula fez uma série de contrapontos a Trump, criticando-o pela guerra no Irã, pela intervenção em outros países e até ironizando seu desejo de ganhar um Prêmio Nobel da Paz. Ele também mencionou o caso do delegado da PF como um ponto de atrito a mais na relação bilateral.
Essa intensificação do antagonismo com Trump não é novidade. Já em 2025, a postura de Lula em reação a tarifas impostas pelo então presidente americano contribuiu para fortalecer sua popularidade em pesquisas, enquanto prejudicava a imagem da família Bolsonaro. Como apuração da Folha Poder destacou, a estratégia de Lula é utilizar Trump como um “contraponto” para desgastar politicamente o clã Bolsonaro, especialmente Flávio Bolsonaro, que é um forte aliado do ex-presidente americano.
No cenário da política externa, a crítica a Trump é um aceno a um eleitorado mais progressista e uma forma de se posicionar como um líder global que defende a soberania dos povos e a paz, em contraste com o que o PT rotula de “intervencionismo” e “populismo de direita” representados por Trump. Para o cidadão, essa polarização internacional reflete e, ao mesmo tempo, alimenta a polarização doméstica. As narrativas sobre os líderes globais são incorporadas ao debate nacional, influenciando percepções sobre economia, segurança e até sobre os valores que devem guiar o país. As alianças e rivalidades globais se tornam parte do jogo político local, com seus reflexos na formulação de políticas públicas e na escolha dos próximos governantes.
A diplomacia de Lula, portanto, opera em múltiplas frentes: busca acordos pragmáticos que beneficiem o Brasil economicamente, mas também se engaja em atritos calculados que servem a propósitos de política interna, moldando o cenário para as próximas eleições e redefinindo a posição do Brasil no xadrez global.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.