A campanha eleitoral de 2026 já começa a dar seus primeiros sinais de articulações e potenciais dores de cabeça para o Palácio do Planalto. Petistas ouvidos pela reportagem, sob reserva, apontam que a insistência do presidente Lula em lançar nomes considerados ideais para as disputas pelo governo de São Paulo e Minas Gerais pode custar caro. A aposta pode deixar o presidente sem aliados de peso nesses dois importantes colégios eleitorais, caso precise de apoio em um segundo turno presidencial.
SP e MG: Onde o Planalto Pode Perder Força
A possibilidade de ficar sem palanques fortes em São Paulo e Minas Gerais ganha contornos mais realistas com as recentes pesquisas. Em São Paulo, dados do Datafolha indicam que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem chances de vencer já no primeiro turno. Em outra rodada do instituto, Lula e Flávio Bolsonaro (PL) aparecem tecnicamente empatados no estado. Essa situação, segundo a avaliação da campanha petista, não é a ideal para garantir a musculatura necessária para um eventual segundo turno.
Não é a primeira vez que o Planalto se vê em uma encruzilhada parecida. Em 2022, por exemplo, a dificuldade em acomodar os diferentes grupos políticos nos estados foi um desafio constante. Agora, em 2026, a estratégia de concentrar esforços em candidaturas específicas em SP e MG, em detrimento de nomes que talvez tivessem maior apelo local, pode sair pela culatra. Quem acompanha o Congresso há tempo sabe que a ânsia por defender bandeiras ideológicas em detrimento do pragmatismo eleitoral costuma trazer surpresas desagradáveis.
A situação em Minas Gerais também não é menos complexa. Embora as pesquisas ainda não indiquem uma vitória em primeiro turno para os adversários, a articulação para garantir um nome forte ao lado do presidente em um eventual segundo turno se mostra desafiadora. A falta de um candidato alinhado e com forte apelo local pode significar a perda de votos e de mobilização em um momento crucial da disputa presidencial.
A Disputa por São Paulo: Um Campo Minado
Em São Paulo, o cenário eleitoral promete ser ainda mais agitado e com debates que extrapolam as fronteiras estaduais. O governador Tarcísio de Freitas, que também não é paulista de berço, criticou a candidatura de Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) ao Senado pelo estado. Segundo ele, as ex-ministras, originárias do Acre e Mato Grosso do Sul, respectivamente, estariam buscando um "atalho" político. Tarcísio afirmou que elas "levaram cartão vermelho" de seus estados e que "não seriam eleitas lá", prevendo que "também não serão aqui, porque a gente não vai deixar". Essa fala, divulgada pelo deputado Guilherme Derrite, expõe uma tensão crescente sobre a legitimidade de candidaturas que não têm raízes profundas no estado.
Curiosamente, essa polêmica atinge em cheio a estratégia do presidente Lula, que tem manifestado apoio a essas candidaturas. Vale lembrar que a Procuradoria Regional Eleitoral em São Paulo já se manifestou pela procedência de uma representação contra o próprio Lula por suposta propaganda eleitoral antecipada em favor de Tebet e Marina. O caso gira em torno de declarações do presidente em um evento oficial, onde ele incentivou o voto para as duas. Essa movimentação eleitoral em São Paulo ilustra a complexidade das articulações partidárias e os riscos envolvidos nas campanhas, onde qualquer deslize pode ser usado como munição política.
O Futuro da Aliança de Michelle Bolsonaro
Enquanto a esquerda lida com seus próprios desafios em São Paulo e Minas, o campo bolsonarista também articula seus movimentos. A deputada Bia Kicis (PL-DF) já defendeu publicamente a candidatura de Michelle Bolsonaro ao Senado, declarando que "esta vaga é dela". A intenção é formar uma dobradinha eleitoral com Kicis, sinalizando a continuidade de uma estratégia que busca capitalizar o capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na minha leitura, essa disputa em São Paulo, com candidaturas de fora do estado e a atuação do Ministério Público Eleitoral, demonstra como as eleições de 2026 já estão sendo disputadas em várias frentes. A tentativa de Lula de fortalecer sua base com nomes específicos pode esbarrar na realidade local e nas regras eleitorais, enquanto o campo conservador tenta consolidar sua força com figuras ligadas diretamente ao ex-presidente.
O que se desenha, portanto, é um cenário de intensas articulações partidárias e movimentos políticos estratégicos. A capacidade do governo em garantir apoio em estados chave como São Paulo e Minas Gerais será um termômetro crucial para a disputa presidencial. Em São Paulo, a polarização já é palpável, com o debate sobre candidaturas de fora do estado adicionando uma camada extra de complexidade e potencial conflito.
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