A fotografia de Javier Milei ao lado de Flávio Bolsonaro neste sábado (25) em São Paulo não é apenas um encontro de alinhados ideologicamente. Para o pré-candidato do PL à Presidência em 2026, a visita do presidente argentino representa uma tentativa de impulsionar sua campanha e dar um verniz internacional ao seu projeto. O gesto de Milei, que viajou ao Brasil para prestigiar o lançamento da candidatura de Flávio, evoca um tempo não tão distante quando a América do Sul vivia uma onda progressista, mas que hoje dá lugar a um movimento conservador que tem no argentino um de seus expoentes mais vocais.

A Força da "Onda Azul" e o Apoio Argentino

O cenário regional mudou. Após a chamada "onda rosa" que marcou o início dos anos 2000, com diversos líderes de esquerda chegando ao poder em países sul-americanos, o continente testemunha hoje um avanço da direita, apelidado de "onda azul". Javier Milei é um dos articuladores e entusiastas dessa nova conjuntura. A aproximação com Flávio Bolsonaro, que já havia visitado Buenos Aires em junho, sinaliza uma estratégia clara de unir forças em torno de pautas conservadoras e liberais. Para Flávio, esse apoio é um trunfo para tentar mobilizar sua base eleitoral e se projetar nacionalmente, apostando no alinhamento com um líder internacional que ressoa com uma parcela significativa do eleitorado brasileiro.

Entretanto, quem acompanha a política brasileira há algum tempo sabe que a articulação de candidaturas em período eleitoral é um jogo complexo. O governo Lula, ciente do potencial de crescimento de Flávio Bolsonaro, tem atuado nos bastidores para tentar isolá-lo. Emissários do Planalto têm dialogado com partidos do chamado "centrão", como Republicanos, União Brasil e PP, com o objetivo de selar um pacto de não agressão. A intenção é clara: impedir que Flávio reúna uma coalizão forte o suficiente para garantir tempo de propaganda eleitoral expressivo na TV, um fator decisivo em eleições presidenciais. Em 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro contou com o apoio de PP e Republicanos, o que lhe garantiu um tempo de antena considerável. A movimentação atual do governo busca reverter o cenário de 2018, onde o grupo governista tenta pulverizar a força de um adversário em ascensão.

Turbulências Internas e Questionamentos à Democracia

Enquanto busca consolidar apoios externos e neutralizar jogadas do governo, Flávio Bolsonaro enfrenta questionamentos que podem minar sua imagem. Diplomatas presentes em um evento com o senador na última terça-feira (21) avaliaram como "inadequada" e "potencialmente danosa" a sua fala sobre as urnas eletrônicas. Flávio propagou informações falsas, afirmando que as urnas venezuelanas são fornecidas pela mesma empresa que equipa o Brasil e que a Smartmatic estaria envolvida em fraudes na Venezuela, citando um suposto relatório da CIA. Tais declarações, mesmo que o senador tenha ponderado não ter a intenção de questionar a legitimidade do processo eleitoral brasileiro, jogam sombra sobre a credibilidade das eleições no país. Essas insinuações, feitas a uma plateia estrangeira, causam desconforto e levantam preocupações sobre um possível efeito desestabilizador no pleito de 2026.

Para um embaixador ouvido pela Folha sob condição de anonimato, não caberia a um pré-candidato presidencial fazer esse tipo de comparação. A conduta de Flávio pode ser interpretada como uma tentativa de criar narrativas de desconfiança, especialmente em um contexto onde a confiança nas instituições democráticas já é um tema sensível. A comparação com a Venezuela, um país em profunda crise política e econômica, é uma estratégia de comunicação que visa acirrar ânimos, mas que também pode gerar repulsa em segmentos mais moderados do eleitorado.

O Inquérito "Dark Horse" e o Legado Familiar

A turbulência não para por aí. O senador Flávio Bolsonaro, assim como seu irmão Eduardo, está no radar de um inquérito aberto pela Justiça para apurar crimes de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção. A investigação se concentra nos repasses de Daniel Vorcaro ao "Dark Horse", um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A atuação de Flávio e Eduardo no caso, juntamente com o publicitário Thiago Miranda, investigado por supostamente coordenar ataques ao Banco Central, adiciona uma camada de complexidade à campanha do pré-candidato. Esse inquérito, em minha leitura, representa um risco significativo, pois toca diretamente na reputação da família Bolsonaro e pode ser explorado pela oposição para questionar a idoneidade de seus membros, especialmente em um ano em que a eleição presidencial promete ser acirrada.

Em 2019, vimos algo parecido quando a família Bolsonaro enfrentou uma série de denúncias que impactaram a imagem pública, como no caso das "rachadinhas". A abertura de novos inquéritos, especialmente aqueles com potencial para gerar manchetes negativas, sempre representa um desafio para qualquer candidato. Para Flávio, em um cenário onde ele busca consolidar sua candidatura e se distanciar de possíveis escândlos, essa investigação é um obstáculo a ser superado. A "onda azul" pode ter em Javier Milei um entusiasta, mas os ventos internos no Brasil parecem trazer consigo tempestades que podem dificultar a travessia de Flávio Bolsonaro rumo à Presidência.