Em um cenário político global que nunca para, as movimentações em Brasília e em Washington parecem ter encontrado um ponto em comum, ainda que por caminhos distintos. Nesta quinta-feira (16), o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, liderou em Washington uma reunião ministerial com representantes de diversos países para discutir o que o governo Trump tem rotulado como o "ressurgimento do terrorismo político de esquerda". Simultaneamente, no Brasil, a notícia de uma nova sobretarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros dominou o noticiário, acendendo o debate sobre as relações comerciais e a condução da política externa nacional.

Rubio e a retórica contra a 'ameaça comunista'

No evento organizado pelo Departamento de Estado americano, Marco Rubio discursou com veemência sobre o que percebe como uma ameaça crescente à ordem democrática. Segundo ele, o "terrorismo de esquerda" tem sido um flagelo para os Estados Unidos e a Europa nos últimos anos, e que "esta era tem de acabar". A retórica de Rubio, que evoca uma dicotomia entre "mal" e "bem", aponta para grupos que, em sua visão, não alcançam seus objetivos por meios legítimos e recorrem à violência. Ele conclamou "líderes do mundo civilizado a se unirem" contra essa suposta ameaça, chegando a apresentar dados sobre o aumento da violência de extrema esquerda em países como Alemanha e Grécia, associando-a à imposição do comunismo.

Essa abordagem, embora focada em um discurso internacional, ressoa com debates internos em diversas nações, incluindo os Estados Unidos, onde questões ideológicas frequentemente pautam o discurso político. A forma como Rubio articula a ameaça do "terrorismo de esquerda" pode ser interpretada como uma tentativa de unificar aliados em torno de uma causa comum, mas também como uma ferramenta para legitimar políticas externas e internas sob uma ótica de segurança nacional.

O reflexo no Brasil: um novo 'tarifaço' em meio a críticas internas

A repercussão dessa movimentação americana não demorou a chegar ao Brasil, e o timing foi especialmente delicado. Na quarta-feira (15), o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) confirmou a proposta de uma sobretarifa de 25% sobre uma extensa lista de produtos brasileiros, com validade a partir de 22 de julho. A medida é resultado de uma investigação comercial que durou um ano, acionada com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um mecanismo que permite aos EUA apurar e combater o que consideram barreiras comerciais impostas por outros países.

Em Brasília, a resposta veio rápida e com tom de forte oposição. O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, não perdeu tempo em atribuir a nova sanção comercial diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em suas redes sociais, o senador comparou Lula a Joe Biden e afirmou que o atual presidente do Brasil "não tem mais condições de ser o presidente do Brasil", caracterizando-o como "ranzinza, inconsequente e um perigo para a nossa nação". Para Bolsonaro, a decisão dos EUA seria uma consequência direta da gestão petista, associada a "atraso, incerteza, desconfiança, corrupção, incompetência e vingança", em contraste com um futuro que, segundo ele, "o Brasil tem, mas não tem mais tempo a perder".

As entranhas da disputa comercial e o impacto no bolso do brasileiro

É crucial entender que a imposição de tarifas, ou "tarifaços" como alguns preferem chamar, não é um instrumento novo nas relações comerciais internacionais, tampouco é exclusiva de governos com viés ideológico. Esse tipo de medida, prevista em leis de comércio como a americana, funciona como uma resposta a supostas práticas comerciais consideradas desleais ou prejudiciais aos interesses do país que a impõe. No caso do Brasil, a investigação do USTR aponta para barreiras comerciais que, segundo os americanos, justificam a aplicação da sobretarifa.

Para o cidadão brasileiro, as consequências dessa disputa tarifária são diretas. Produtos nacionais que hoje têm acesso ao mercado americano podem se tornar mais caros, perdendo competitividade. Isso pode afetar exportadores, gerar receio em investidores e, em última instância, impactar o custo de vida e a disponibilidade de certos bens no mercado interno brasileiro. Ao mesmo tempo, a retórica de Rubio, focada no combate a um suposto "terrorismo político de esquerda", e a resposta de Flávio Bolsonaro, que vincula a tarifa à incompetência do governo Lula, adicionam camadas ideológicas a uma disputa que, em sua essência, envolve questões econômicas e comerciais.

Um padrão conhecido na política externa e doméstica

Quem acompanha o Congresso Nacional e as movimentações políticas em Brasília há anos percebe um padrão: discursos internacionais de um lado muitas vezes servem de palco para ataques domésticos do outro. O que Marco Rubio disse em Washington, ainda que focada em um tema global como o terrorismo, encontrou no senador Flávio Bolsonaro um eco imediato para reforçar sua crítica ao governo Lula. Não é incomum que eventos internacionais sejam apropriados por opositores para fins de campanha eleitoral, especialmente em um cenário pré-eleitoral acirrado como o que o Brasil vive.

Em minha leitura, o discurso de Rubio, ao focar em "terrorismo político de esquerda", serve para solidificar uma narrativa de ameaça externa e ideológica que, convenientemente, pode ser ligada a governos de esquerda em outros países. A resposta de Flávio Bolsonaro, ao imediata e enfaticamente culpar Lula pela sobretarifa, demonstra como a política externa se torna um campo de batalha interno. Esse tipo de reação, que transforma um conflito comercial em um ataque direto à governabilidade, é um movimento político previsível. A articulação entre a preocupação americana com a "esquerda" e a crítica brasileira ao governo Lula ilustra como agendas internacionais e domésticas se entrelaçam, criando um tabuleiro complexo onde interesses comerciais e discursos ideológicos se chocam.

Essa dinâmica, onde um pronunciamento estrangeiro é usado para alimentar críticas internas, me lembra de outras ocasiões em que debates internacionais foram trazidos para o centro da política brasileira, muitas vezes com o intuito de reforçar polarizações já existentes. O desafio para o cidadão comum é separar a análise das relações comerciais e das estratégias geopolíticas de discursos que visam unicamente a disputa eleitoral. A sobretarifa americana, seja qual for a justificativa oficial, terá um impacto real na economia brasileira, e o debate político em torno dela precisa ir além das acusações mútuas para buscar soluções concretas.