O Brasil entrou em uma nova e delicada fase da relação comercial com os Estados Unidos nesta quinta-feira (23/07/2026), com a entrada em vigor de tarifas adicionais de 25% sobre diversos produtos nacionais. A medida, anunciada pelo governo americano após uma investigação comercial, acendeu um alerta em Brasília, que agora busca um equilíbrio entre a defesa dos interesses nacionais e a manutenção de um diálogo produtivo com um dos principais parceiros comerciais do país.

A resposta inicial do governo Lula tem sido calcada na diplomacia e em ações de suporte aos atingidos. O presidente Lula tem repetido que o Brasil não vai "ficar chorando" nem se fechar para negociações, mas que tampouco encontrou "reciprocidade" nas conversas até agora. A postura é de estar "na mesa de negociação com nossas propostas", indicando que o caminho da conversa direta com o governo americano segue como prioridade.

Apoio aos setores: medidas em estudo e crédito liberado

O governo federal não tem medido esforços para tentar suavizar o impacto do chamado "tarifaço" sobre as empresas brasileiras. Logo após o anúncio das novas taxações, a gestão petista já divulgou a liberação de R$ 18,5 bilhões em crédito para os setores mais afetados. A medida busca injetar liquidez nas empresas e permitir que elas continuem operando diante do aumento dos custos para exportar para os EUA.

Mas não para por aí. O governo tem promovido uma série de reuniões com os 22 setores produtivos que foram mapeados como mais vulneráveis à nova política tarifária americana. O objetivo é entender as necessidades específicas de cada um e desenvolver medidas de apoio mais personalizadas. Opções como a ampliação das compras governamentais para absorver parte da produção nacional estão sendo discutidas. Essa estratégia de "ajuda em etapas", como descreve a apuração inicial do G1 Política, demonstra uma preocupação em não sobrecarregar as contas públicas de forma abrupta, mas sim em atuar de maneira progressiva e direcionada.

Lei de Reciprocidade: um trunfo na manga, mas não a primeira opção

Embora a resposta imediata do Brasil não seja de retaliação, a Lei de Reciprocidade Econômica surge como um instrumento de defesa, embora sua aplicação não seja o cenário desejado. O vice-presidente Geraldo Alckmin tem sido o porta-voz dessa cautela, afirmando que a lei "está na mesa", mas que o objetivo do governo não é "fazer guerra comercial, e sim resolver o problema". Na minha leitura, essa é uma sinalização clara para os Estados Unidos de que o Brasil possui ferramentas para retaliar, mas que a preferência é por uma solução negociada.

Em 2019, vimos algo parecido quando o governo americano aplicou tarifas sobre o aço e o alumínio brasileiros. Na época, a discussão sobre reciprocidade também foi intensa, mas a negociação acabou prevalecendo. O padrão que acompanho em Brasília é que, em situações de tensão comercial, o governo sempre tenta esgotar as vias diplomáticas antes de partir para medidas mais drásticas, pois as consequências de uma guerra comercial podem ser devastadoras para todos os lados.

Divergências e a busca por novos mercados

Apesar do esforço governamental em buscar um acordo, a divergência de visões entre o setor empresarial e o governo sobre a aplicação de medidas de reciprocidade tem sido notória. Enquanto o governo mantém a porta aberta para a Lei de Reciprocidade, as entidades empresariais tendem a defender que o Brasil priorize a negociação e as medidas de apoio internas. Esse embate, embora sutil, é importante para entendermos a complexidade da articulação política em torno da questão.

Paralelamente às negociações e às medidas de apoio, o governo brasileiro também está de olho na diversificação de seus mercados de exportação. A estratégia de buscar novos compradores para produtos que antes eram destinados majoritariamente aos Estados Unidos é fundamental para reduzir a dependência e aumentar a resiliência da economia nacional frente a choques externos. É como se o Brasil, ao ser barrado em uma porta, estivesse buscando ativamente outras entradas, garantindo que o fluxo de suas exportações não seja interrompido.

Na minha análise, o fato de o presidente Lula ter reiterado que o Brasil não vai "ficar chorando" demonstra uma tentativa de transmitir força e confiança para o mercado internacional e para a própria população. É uma mensagem de que o país está ciente dos desafios, mas preparado para enfrentá-los com proatividade, buscando soluções e alternativas, sem se deixar abater pelas dificuldades impostas. A questão agora é acompanhar se essa combinação de negociação, apoio e diversificação será suficiente para neutralizar os efeitos do tarifaço americano e evitar um estrangulamento nas exportações brasileiras.