O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, jogou luz sobre um ponto crucial para o futuro econômico do Brasil: a integração do país às cadeias globais de valor da inteligência artificial. Em um cenário onde o crescimento atual parece aquecido pelo consumo doméstico e pela renda em alta, Galípolo alerta que essa fórmula, embora defensiva contra choques externos, tem um limite. Sem ganhos de produtividade ligados a avanços tecnológicos como a IA, o ciclo de prosperidade pode ser passageiro.
A dinâmica atual, com demanda aquecida e taxas de desemprego em mínimas históricas, pressiona os preços de serviços mais intensivos em mão de obra. Essa demanda crescente, segundo Galípolo, exige respostas do Banco Central, muitas vezes na forma de juros. "A gente enxerga essas pressões de demanda dentro dos indicadores de inflação de serviços, que são mais intensivos em mão de obra, o que responde a essa economia que vem crescendo com taxas de desemprego em mínimo histórico e renda em máximo histórico", explicou durante um painel no Fórum Jurídico de Lisboa.
A grande questão levantada por Galípolo é: como o Brasil pode se inserir de forma mais eficiente nas novas engrenagens da economia global? A resposta, na visão dele, reside na estruturação de parcerias e na adoção de novas tecnologias para impulsionar a produtividade. É um desafio de longo prazo, que exige uma visão estratégica para ir além do crescimento impulsionado puramente pelo consumo interno.
Enquanto a discussão sobre o futuro tecnológico avança, o cenário fiscal brasileiro se mostra cada vez mais apertado. Luis Stuhlberger, CEO da Verde Asset, aponta o elevado endividamento dos governos como o principal problema global, e o Brasil não escapa dessa realidade. A pressão fiscal, segundo ele, eleva os prêmios de juros de longo prazo e dificulta a queda das taxas. Stuhlberger criticou a postura fiscal brasileira, destacando que o governo gasta uma fatia considerável do PIB (cerca de 38%) sem que isso se traduza necessariamente em ganhos de produtividade.
No dia a dia do brasileiro, a preocupação fiscal se traduz em incertezas. Gastos públicos elevados e dívida crescente podem significar um ambiente menos favorável para investimentos, o que, em última instância, afeta a geração de empregos e o poder de compra. Se o governo precisa gastar mais com juros da dívida, sobra menos para áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura.
O impacto direto nos serviços públicos
E o que um país com desafios fiscais e que ainda não se integrou totalmente às cadeias de valor da inteligência artificial tem a ver com o seu dia a dia? Mais do que se imagina. Um exemplo claro vem do bloqueio de 18% no orçamento das agências reguladoras federais. Essa medida, que faz parte de um corte maior no Orçamento de 2026, tem o potencial de comprometer seriamente a fiscalização de setores cruciais, investimentos em tecnologia e a prestação de serviços à população.
Imagine que as agências reguladoras são como os fiscais que garantem que os serviços que você usa – como energia, telecomunicações, transporte – funcionem bem e dentro das regras. Se esses fiscais têm o orçamento cortado, sua capacidade de monitorar, investir em ferramentas mais modernas e até mesmo de atender às suas demandas fica prejudicada. Não é um problema abstrato; significa potenciais atrasos em novas tecnologias de comunicação, menos fiscalização sobre a qualidade da energia, ou até mesmo a lentidão na aprovação de novos serviços que poderiam baratear o seu dia a dia.
Segundo Guilherme Sampaio, presidente do Comitê das Agências Reguladoras Federais (Coarf), os sucessivos cortes já reduziram a capacidade operacional desses órgãos. Em uma década, o orçamento do setor encolheu cerca de 40% quando corrigido pela inflação. Um bloqueio de 18% em cima de um orçamento já fragilizado agrava um cenário que já era crítico, alertou Sampaio. A dificuldade em manter a infraestrutura tecnológica e o quadro de pessoal qualificado pode impactar diretamente a agilidade e a eficácia dessas instituições.
A relação entre crescimento sustentável, integração em novas tecnologias como a inteligência artificial e a saúde fiscal é intrincada. Para o Brasil prosperar de verdade, não basta apenas consumir mais; é preciso produzir melhor e de forma mais eficiente. A adoção de IA, por exemplo, pode não só aumentar a produtividade em diversos setores, como também abrir portas para a criação de novos empregos e modelos de negócio. No entanto, para que essa transformação ocorra, é fundamental que o país tenha um ambiente econômico estável e com contas públicas sob controle, permitindo investimentos em educação, pesquisa e desenvolvimento.
Em resumo, os debates econômicos atuais giram em torno de como garantir que o crescimento do Brasil não seja apenas um sopro passageiro. A inteligência artificial surge como uma promessa de ganho de produtividade e um caminho para a sustentabilidade, mas o caminho passa por uma gestão fiscal responsável e pela capacidade do governo de honrar seus compromissos, garantindo que os serviços públicos essenciais, como a fiscalização, recebam o investimento necessário para operar com eficiência.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.