A conta não fecha. Um novo relatório do Banco Central (BC) escancara uma desigualdade que, embora sentida na pele por muitas brasileiras, agora ganha números oficiais: mulheres negras são as que pagam os juros mais altos no país. É como se, além de todas as barreiras já enfrentadas, elas ainda tivessem que pagar uma 'taxa extra' para ter acesso ao crédito.

O Que Diz o Relatório do Banco Central?

O Relatório de Cidadania Financeira 2025 do BC, divulgado nesta segunda-feira (13), traz dados inéditos sobre o acesso ao crédito segmentados por gênero e raça. Segundo apuração da Folha, o último levantamento sobre o tema, de 2021, não trazia esse nível de detalhamento.

Os números mostram que, entre a população de baixa renda, as mulheres negras são as que arcam com as maiores taxas de juros. Isso significa que, ao contratar um empréstimo, financiar um carro ou usar o cartão de crédito, elas pagam mais caro do que homens brancos, homens negros ou mulheres brancas na mesma faixa de renda. Uma baita injustiça, convenhamos.

Por Que Isso Acontece?

A resposta não é simples e envolve uma série de fatores. Um deles é o histórico de desigualdade racial e de gênero no Brasil. Mulheres negras, em geral, têm menos acesso à educação, ao mercado de trabalho formal e a oportunidades de crescimento profissional. Isso se traduz em menor renda e maior dificuldade para comprovar capacidade de pagamento.

Outro fator é o chamado “risco percebido” pelas instituições financeiras. Bancos e financeiras, ao avaliar um pedido de crédito, levam em conta uma série de critérios para determinar o risco de inadimplência (ou seja, de a pessoa não pagar a dívida). Infelizmente, o preconceito e os estereótipos raciais podem influenciar essa avaliação, fazendo com que mulheres negras sejam vistas como clientes mais arriscadas e, portanto, sujeitas a juros mais altos.

O Impacto no Dia a Dia

E qual a consequência disso tudo para a vida da mulher negra brasileira? É simples: menos dinheiro no bolso. Juros mais altos significam prestações maiores, dívidas que se acumulam e um poder de compra menor. Aquela geladeira nova, o curso profissionalizante ou a tão sonhada casa própria ficam cada vez mais distantes. Sem falar no estresse e na insegurança financeira que essa situação gera.

Imagine que duas pessoas, uma mulher negra e um homem branco, ambos de baixa renda, precisam de um empréstimo de R$ 1.000 para pagar uma conta urgente. Se a mulher negra tiver que pagar juros maiores, ela terá que desembolsar, no final das contas, um valor bem superior ao do homem branco. Essa diferença, por menor que pareça, pode fazer toda a diferença no orçamento familiar.

O Que Pode Ser Feito?

Combater essa desigualdade no acesso ao crédito é um desafio complexo, mas não impossível. Algumas medidas que podem ajudar:

  • Políticas públicas de inclusão financeira: programas que incentivem a educação financeira, o acesso ao crédito para mulheres negras e o empreendedorismo.
  • Combate ao preconceito racial: campanhas de conscientização e fiscalização para evitar a discriminação no mercado de crédito.
  • Transparência e regulamentação: regras mais claras e transparentes sobre as taxas de juros cobradas pelas instituições financeiras, com mecanismos de controle e punição para práticas abusivas.

É preciso lembrar que o acesso ao crédito é um direito fundamental e que a desigualdade nesse acesso perpetua um ciclo de pobreza e exclusão. Garantir que todas as brasileiras, independentemente de sua raça ou gênero, tenham as mesmas oportunidades é um passo essencial para construir um país mais justo e igualitário.

O relatório do Banco Central joga luz sobre um problema que precisa ser enfrentado com urgência. Resta saber se o governo, as instituições financeiras e a sociedade como um todo estarão dispostos a arregaçar as mangas e trabalhar juntos para mudar essa realidade.