O Fundo Monetário Internacional (FMI) deu um recado claro para o Brasil nesta quinta-feira (23/07/2026): a economia do país tem mostrado uma notável resiliência diante de um cenário global turbulento, mas é hora de reforçar os cuidados e planejar com mais afinco o futuro fiscal.
Em seu relatório periódico sobre o Brasil, conhecido como “consulta do Artigo IV”, divulgado nesta quinta-feira, o FMI reconheceu a capacidade do país de navegar por tempos incertos, como os recentes conflitos no Oriente Médio, e projetou um crescimento de 2,4% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2026. Essa avaliação, resultado de uma análise aprofundada encerrada em 20 de julho, traz um misto de boas notícias e alertas para quem acompanha a economia brasileira.
Política monetária: ritmo mais lento para juros
Para quem acompanha o dia a dia das notícias econômicas, não é novidade que a discussão sobre juros é sempre acalorada. O FMI reforça a ideia de que a política monetária no Brasil deve continuar flexível e estritamente atrelada aos dados que chegam. Mais do que isso, a instituição sugere que a normalização dos juros — ou seja, a volta a patamares considerados mais estáveis — deve ocorrer em um ritmo mais lento do que se imaginava antes da guerra no Oriente Médio desestabilizar ainda mais o cenário global.
Na minha leitura, isso significa que o Banco Central deve manter a cautela. É como se estivéssemos numa estrada com muitas curvas e o motorista precisa dosar a velocidade para não sair da pista. A inflação pode até dar sinais de melhora, mas qualquer sinal de instabilidade lá fora ou um imprevisto interno pode fazer com que a volta dos juros a níveis baixos demore um pouco mais. Para o seu bolso, isso pode se traduzir em crédito ainda caro por mais tempo, impactando diretamente o custo de financiamentos, parcelas de compras e até mesmo o planejamento de investimentos.
A projeção do Fundo para o PIB em 2027 aponta para uma desaceleração, para 2,2%, em parte devido a essa política monetária mais restritiva que se pretende manter. O economista André Roncaglia, em sua análise para a Folha Mercado, contextualiza que a relação do Brasil com o FMI mudou significativamente desde 2005, quando o país quitou sua dívida com o órgão. Hoje, em vez de condicionalidades, o país recebe avaliações de alto nível sem a obrigatoriedade de seguir todas as recomendações, mas que servem como importantes diagnósticos.
Esforço fiscal precisa ser mais ambicioso
Além da política monetária, o FMI fez um aceno claro para a necessidade de um esforço fiscal mais ambicioso. Os diretores da instituição destacaram a importância de fortalecer o arcabouço fiscal, o que envolve medidas como a fixação de limites de gastos mais rigorosos, a criação de uma âncora de dívida de médio prazo e a ligação do crescimento das despesas com as receitas estruturais. Em termos práticos, isso significa que o governo precisará ser mais contido nos gastos e mais eficiente na arrecadação para garantir a sustentabilidade da dívida pública e abrir espaço para investimentos em áreas prioritárias.
Quem acompanha os debates sobre o orçamento público sabe que essa é uma discussão que se arrasta há anos. Lembro-me de coberturas em 2020 e 2021 onde a necessidade de um ajuste fiscal era pauta constante, e o cenário de incertezas globais só torna essa necessidade ainda mais premente. Um ajuste fiscal bem feito, que não prejudique a oferta de serviços públicos essenciais e que não sufoque a iniciativa privada, é fundamental. O risco, caso contrário, é de as contas públicas se tornarem um freio para o desenvolvimento do país, afetando a confiança dos investidores e, consequentemente, o ambiente de negócios e a geração de empregos.
As projeções do FMI indicam que a inflação, que pode ter atingido um pico de 5,6% neste ano, deverá cair para 3,2% em 2027 e se manter estável em torno de 3,1% a partir de 2028. Essa expectativa de controle inflacionário, se confirmada, é um bom sinal. No entanto, a estabilidade de preços sustentada depende, em grande parte, da disciplina fiscal. Sem ela, a tarefa do Banco Central de manter a inflação sob controle se torna muito mais árdua.
Resiliência em meio a choques
O relatório do FMI também aponta para o crescimento do PIB em 2028 (2,4%) e projeções de cerca de 2,5% para os anos seguintes até 2031. Essa visão de médio prazo, embora menos eufórica do que em outros momentos, reflete uma economia que, apesar dos percalços, tem capacidade de seguir crescendo de forma mais regular. O Terra Economia, em sua publicação, destacou como o Brasil enfrentou vários choques com “notável resiliência”.
Essa capacidade de absorver impactos é um ponto forte, mas não pode ser motivo para complacência. É como um atleta que, após uma prova difícil, sente que aguentou o tranco, mas precisa de um bom treinamento de recuperação para estar pronto para os próximos desafios. Na minha visão, o governo brasileiro precisa aproveitar esse momento de relativa estabilidade para consolidar as reformas estruturais e garantir que essa resiliência se traduza em crescimento sustentável e melhoria de vida para todos os brasileiros. Ignorar os alertas do FMI sobre a necessidade de mais arrocho fiscal e de cautela na política monetária seria como deixar a guarda baixa em um momento crucial.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.