Aquele cheirinho familiar de posto de gasolina pode ter um toque a mais de etanol a partir de hoje. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) se reúne nesta terça-feira para decidir se a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina passará dos atuais 30% para 32%. Essa decisão, que já vinha sendo discutida há algum tempo, integra a estratégia do governo de incentivar o uso de biocombustíveis e diminuir a dependência do país em relação à gasolina importada. Na minha visão, o governo quer dar um passo adiante na busca por maior autossuficiência energética, o que é um movimento válido, especialmente em um cenário internacional com preços voláteis de petróleo.

Redução na importação de gasolina e segurança energética

A principal justificativa para essa elevação na mistura é a redução da necessidade de importação de gasolina. Segundo o Ministério de Minas e Energia, o aumento para 32% poderia diminuir em cerca de 500 milhões de litros por mês a demanda por gasolina importada. Isso significa que o Brasil teria condições de se tornar autossuficiente no abastecimento desse combustível. Para quem acompanha o setor, essa busca por maior segurança energética não é novidade. Desde a crise do petróleo dos anos 70, o Brasil tem apostado em alternativas, e o etanol, com sua produção nacional consolidada, é peça-chave nesse quebra-cabeça.

Para a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), a medida representa a continuidade de uma política importante para o país. Eles veem o aumento como um reforço no uso de um combustível renovável, que contribui para a descarbonização e, claro, para a segurança energética, diminuindo a vulnerabilidade a choques externos no mercado de petróleo.

O que isso significa para o seu carro?

Agora, a pergunta que não quer calar: como essa mudança afeta o seu bolso e o seu carro? A primeira coisa a se notar é que, em geral, o etanol é um combustível mais barato que a gasolina. No entanto, ele tem um poder calorífico menor, o que significa que um litro de etanol rende menos quilômetros do que um litro de gasolina. A conta que o consumidor faz é sempre a seguinte: se o preço do litro do etanol custar mais de 70% do preço do litro da gasolina, o mais vantajoso é abastecer com gasolina. Essa relação pode mudar com o novo percentual de mistura.

O ponto de atenção, levantado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e por engenheiros, é a compatibilidade de motores mais antigos ou importados com o novo teor de etanol. O etanol anidro, mesmo desidratado, tem capacidade de absorver umidade. Essa água, ao entrar em contato com componentes metálicos do motor não projetados para essa condição, pode acelerar a corrosão. Quem tem um carro mais antigo, ou um modelo importado que foi projetado para operar com teor de etanol menor, deve ficar mais atento e, se possível, consultar o manual do proprietário ou um mecânico de confiança.

Não é a primeira vez que o governo mexe na porcentagem de etanol na gasolina. Em junho de 2025, a mistura já havia passado de 27,5% para os atuais 30%. Acompanho essa dinâmica há anos, e o padrão é que, a cada aumento, surjam dúvidas sobre a adaptação dos veículos. A diferença agora é que o marco regulatório "Combustível do Futuro" busca justamente dar mais previsibilidade e incentivar a transição para combustíveis mais limpos.

O lado positivo para o meio ambiente

Além dos aspectos de autossuficiência e custos, a mudança também se alinha com as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. O etanol é um biocombustível, o que significa que sua produção, teoricamente, emite menos carbono do que a extração e refino do petróleo. Ao aumentar a participação do etanol na gasolina, o governo aposta em um caminho para tornar o setor de transportes brasileiro mais sustentável. Essa é uma tendência global, e o Brasil, com sua forte indústria sucroalcooleira, tem um papel importante a desempenhar nesse cenário.

Na minha leitura, o governo quer capitalizar em cima da produção nacional de etanol para reduzir a dependência externa e, ao mesmo tempo, dar um passo em direção a metas ambientais. A questão da compatibilidade dos carros mais antigos é um ponto de atenção que precisa ser monitorado de perto, mas o movimento geral é de incentivo a um combustível renovável e produzido aqui mesmo.