Sabe aquela sensação de aperto no peito quando a conta do supermercado não fecha? Ou quando o salário parece encolher a cada mês? Pois é, as tensões geopolíticas no Oriente Médio, em especial a guerra entre Irã e EUA, podem azedar ainda mais essa realidade. O temor agora é a estagflação: uma combinação indigesta de inflação alta e crescimento econômico fraco. Um cenário que, infelizmente, não é novidade para o Brasil.
O que é estagflação e por que ela assusta?
Estagflação é um termo que surgiu nos anos 70 para descrever um período em que a economia dos países desenvolvidos sofria com o aumento generalizado dos preços (inflação) e, ao mesmo tempo, com o baixo crescimento econômico ou até mesmo recessão (estagnação). É como se o motor da economia estivesse engasgado, consumindo muito combustível (inflação) mas sem conseguir acelerar (crescimento).
O problema é que as ferramentas tradicionais para combater inflação (aumento das taxas de juros) podem piorar o cenário de estagnação, enquanto medidas para estimular o crescimento (redução de juros) podem alimentar ainda mais a inflação. É um dilema e tanto para os bancos centrais.
Guerra no Oriente Médio: um gatilho para a estagflação?
A escalada das tensões entre Irã e EUA, com o bloqueio do Estreito de Ormuz, acendeu um sinal de alerta na economia global. Ormuz é uma passagem estratégica por onde escoa boa parte do petróleo mundial. Interrupções nesse fluxo podem gerar um choque de oferta, elevando os preços da commodity e, consequentemente, da gasolina, do diesel e de diversos outros produtos.
E não é só o petróleo. A Rússia, aproveitando a crise em Ormuz, está usando seu acesso a fertilizantes como forma de pressão para obter apoio político. Com o estreito praticamente interrompido, o país se torna uma alternativa natural para o fornecimento global desses insumos, já que é o segundo maior produtor e o maior exportador de fertilizantes do mundo. Como lembrou o site The Conversation, os países do Golfo, liderados por Irã, Catar e Arábia Saudita, forneceram 36% de todas as exportações globais de ureia entre 2023 e 2025, o fertilizante nitrogenado mais usado no agronegócio global. A restrição na oferta e a alta nos preços dos fertilizantes impactam diretamente a produção de alimentos, elevando os custos para o consumidor final.
Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a guerra no Oriente Médio pode reduzir o crescimento da Europa em cerca de 0,5 ponto porcentual até 2027, com efeitos mais intensos em países dependentes de energia importada e em economias mais expostas ao comércio exterior.
E o Brasil nessa história?
O Brasil não está imune aos efeitos da crise no Oriente Médio. A alta do petróleo, por exemplo, pode pressionar a inflação, especialmente nos transportes e na alimentação. Além disso, a estagflação global pode afetar o crescimento do país, reduzindo a demanda por nossos produtos e dificultando a entrada de investimentos estrangeiros.
Para o consumidor, isso pode significar um custo de vida mais alto, com preços subindo e empregos ameaçados. Aquele sonho de trocar de carro, viajar ou comprar a casa própria pode ficar mais distante. É hora de apertar os cintos e se preparar para um cenário de incertezas.
O que esperar do futuro?
A reabertura de Ormuz pelo Irã trouxe um alívio momentâneo, mas a normalização do fornecimento de petróleo pode levar semanas. Bancos que participaram da Reunião de Primavera do FMI em Washington estimam que o mundo pode sofrer um apagão de fornecimento na segunda semana de maio se o fluxo não for normalizado rapidamente. Segundo essas projeções, um atraso no restabelecimento das cadeias logísticas pode catapultar o preço do barril para a faixa de US$ 150 a US$ 200.
Diante desse cenário, é fundamental que os bancos centrais ajam com cautela, buscando um equilíbrio entre o combate à inflação e o estímulo ao crescimento. A política fiscal também precisa ser responsável, evitando gastos excessivos que possam alimentar a inflação. No Brasil, o desafio é ainda maior, já que a economia ainda se recupera dos impactos da pandemia.
Ainda é cedo para cravar que a estagflação vai se concretizar. Mas os sinais de alerta estão acesos. Acompanhar de perto os desdobramentos da crise no Oriente Médio e seus impactos na economia global é fundamental para se preparar para o que vem por aí. E, claro, para tomar decisões financeiras mais conscientes.
Disclaimer: Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação de investimento. Cada investidor deve realizar sua própria análise e consultar um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão.