A reunião mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom) resultou em um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, que agora está em 14,50%. No entanto, a ata divulgada nesta terça-feira (05/05/2026) trouxe mais nuances do que o comunicado inicial, sinalizando uma postura mais resguardada do Banco Central diante de um cenário inflacionário que teima em não arrefecer totalmente.

Para o cidadão comum, isso pode se traduzir em um alívio mais lento no bolso. A principal preocupação dos membros do Copom parece ser a persistência de pressões inflacionárias, com projeções apontando para impactos que se estendem até 2028. Esse horizonte mais distante para a normalização dos preços é um dos pontos que leva economistas a acreditarem que o Banco Central pode optar por um ritmo mais comedido na redução dos juros nas próximas reuniões, ou até mesmo em uma magnitude menor a cada corte.

O fantasma da inflação global e os juros

O cenário internacional, especialmente o conflito no Oriente Médio, figura como um grande ponto de interrogação. A instabilidade na região já sentiu nos preços dos combustíveis, mas as incertezas sobre a extensão e duração desses efeitos na cadeia produtiva são um fator chave. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, aponta que essa incógnita pode levar o BC a manter uma postura cautelosa.

É como se estivéssemos com uma panela de pressão fervendo e o Banco Central tentando gerenciar o calor e a liberação de vapor. A guerra adiciona mais calor, aumentando o risco de a pressão ficar incontrolável. O Banco Central precisa ser extremamente cauteloso para não liberar o vapor (reduzir juros) cedo demais, sob o risco de causar uma explosão de inflação. Essa cautela na política monetária, ao segurar os juros por mais tempo, impacta diretamente o crédito. Empréstimos, financiamentos e até mesmo o limite do cartão de crédito tendem a continuar com taxas elevadas, pesando nas parcelas que saem do orçamento familiar.

Governo aposta em alívio de dívidas, mas com ressalvas

Em meio a esse cenário, o Ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu que as novas medidas do programa Desenrola, que busca renegociar dívidas de famílias com descontos e acesso a crédito mais barato, não devem atrapalhar o trabalho do Banco Central. A ideia é liberar renda para as famílias, mas Durigan minimiza o impacto direto no consumo, sugerindo que o montante destinado não deve gerar pressões inflacionárias significativas.

Ele comparou a iniciativa a um ajuste pontual, distinto de efeitos mais amplos como os causados pela guerra. O governo disponibiliza até R$ 15 bilhões em garantias para viabilizar essas renegociações, um movimento que visa aliviar o endividamento e, teoricamente, o comprometimento da renda das famílias. A primeira fase do Desenrola, que ajudou a quitar dívidas antigas, especialmente as decorrentes da pandemia, é vista como um sucesso nesse sentido.

Porém, a percepção de parte do mercado é que qualquer medida que injete dinheiro na economia, mesmo com boas intenções, exige monitoramento atento. O risco de que o dinheiro liberado para pagamento de dívidas acabe sendo usado para impulsionar o consumo em um momento de inflação já elevada é um dos pontos de atenção para a condução da política monetária.

Caminhos da política fiscal

Durigan também assegurou que o governo manterá a neutralidade fiscal nas medidas para mitigar os efeitos da guerra, como desonerações e subsídios para combustíveis. Ele frisou que o Brasil não será “sócio da guerra” e que as ações serão planejadas para cumprir o orçamento aprovado, sem grandes desvios. A ideia é não aumentar gastos por conta da instabilidade global, mas também não recuar em ações de proteção.

Essa postura fiscal, aliada a um cenário externo volátil, contribui para a complexidade da decisão do Banco Central. A ata do Copom, embora não dê pistas explícitas sobre os próximos passos, reforça a dependência do BC em relação aos dados econômicos e ao desenrolar dos acontecimentos globais. Para o brasileiro, isso significa que a espera por juros mais baixos e, consequentemente, por um custo de vida mais acessível, pode continuar um pouco mais longa do que o desejado.

O caminho para a normalização econômica parece ainda ter alguns obstáculos, e o Banco Central enfrenta um cenário complexo e imprevisível.