A indústria brasileira amanhece mais apreensiva com a ameaça de novas tarifas dos Estados Unidos e a confiança dos empresários industriais atinge o menor patamar desde a pandemia. A combinação de incertezas globais e potenciais retaliações comerciais pode ter reflexos no custo de vida e no emprego.

A última leitura do Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostrou uma queda de 2,3 pontos em julho, atingindo 44,4 pontos. Isso significa que o humor dos donos de fábrica no país está mais pessimista: o indicador está 8,9 pontos abaixo da média histórica de 53,3 pontos. Em termos práticos, quando o empresário perde a confiança, ele tende a segurar investimentos e novas contratações, o que, no médio prazo, pode impactar a oferta de empregos e o ritmo de crescimento da economia.

A ameaça das tarifas americanas

O clima de incerteza na indústria não vem só do cenário interno. A ameaça de que os Estados Unidos imponham novas tarifas sobre produtos brasileiros tem sido um dos principais vetores dessa desconfiança. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) avalia a possibilidade de taxar em 25% alguns itens que o Brasil exporta, algo que, segundo o Global Trade Alert (GTA), nos colocaria como o segundo país com maiores tarifas aplicadas pelos americanos, atrás apenas da China. Atualmente, ocupamos a 13ª posição nesse ranking.

Essa ofensiva comercial americana tem um alvo específico que, surpreendentemente, se tornou um ponto de atrito: o Pix. Washington acusa o Brasil de favorecer um sistema de pagamentos estatal e prejudicar empresas americanas do setor, como as operadoras de cartões de crédito. "A gente não precisa pagar taxa nenhuma pelo PIX. Com cartão de crédito tem taxa, anuidade, taxa do banco... Com o Pix não", disse à AFP um dono de quiosque na Praia de Copacabana, ilustrando a vantagem que o sistema gratuito oferece aos brasileiros e aos pequenos negócios.

Setor industrial sente os efeitos da insegurança

A queda na confiança industrial não é um fenômeno novo, mas a conjunção de fatores globais e essa potencial disputa tarifária com os EUA trazem um tempero extra de preocupação. Quem acompanha o setor há algum tempo sabe que o índice de confiança da indústria é sensível a qualquer sinal de instabilidade no comércio internacional. Em 2020, vimos o ICEI despencar devido aos efeitos imediatos da pandemia, atingindo 41,2 pontos. Agora, o indicador volta a flertar com esses patamares, o que é um sinal de alerta.

Na minha leitura, o governo brasileiro precisa intensificar os esforços diplomáticos para reverter essa situação. Argumentos de que o Pix beneficia a inclusão financeira e impulsiona pequenos negócios são válidos, mas o risco de represálias comerciais é real e pode desencadear um efeito dominó. Empresas que dependem de exportação para os EUA, ou que têm cadeias de produção ligadas ao mercado americano, podem sentir o impacto diretamente, seja no aumento do custo de insumos importados ou na dificuldade de colocar seus produtos no exterior. Isso pode se refletir em um encarecimento de bens de consumo no nosso mercado interno e, em casos mais graves, em cortes de produção e demissões.

O que isso significa para você?

O reflexo dessas tensões comerciais e da baixa confiança industrial não fica restrito às salas de reunião das grandes corporações. Para o consumidor, um cenário de menor investimento e possível retaliação pode significar o quê? Primeiramente, uma desaceleração na criação de empregos ou até mesmo demissões em setores mais afetados. Em segundo lugar, o custo de vida pode ser pressionado. Se exportar para os EUA se torna mais caro, ou se insumos importados para a produção local sofrem novas tarifas, as empresas tendem a repassar esses custos para o preço final dos produtos. Ou seja, aquele passeio ao supermercado pode ficar um pouco mais salgado.

Além disso, a maior insegurança dos empresários pode levar a um freio na inovação e no desenvolvimento de novos produtos. A apuração do The Brazil News mostra que a demora na decisão final sobre as tarifas americanas também contribui para essa paralisia, pois as empresas ficam em compasso de espera. É como tentar planejar uma viagem de carro, mas sem saber se a estrada estará aberta ou se haverá desvios inesperados que tornam o trajeto impossível ou excessivamente caro. A falta de clareza dificulta o planejamento e pode adiar projetos importantes para o crescimento do país.

Por fim, é importante lembrar que o Brasil tem buscado negociar e mostrar ao governo americano os benefícios das suas práticas comerciais. O governo já se manifestou publicamente sobre a importância do Pix como ferramenta de inclusão e digitalização financeira. A expectativa é que um acordo seja alcançado para evitar um cenário de tarifas que prejudique ambas as economias. Até lá, o empresário industrial brasileiro continuará de olho no noticiário internacional com uma dose extra de apreensão.